sábado, 12 de setembro de 2015

Igi Ọdán – Igi Ìrókò












Nascida epífita e espontaneamente, semeada no andar superior da floresta por algum pássaro que se alimentou de seu fruto, esta impressionante árvore resplandece independente do lugar, exibindo poderosas raízes que contrastam com as sombras silvestres e com a folhagem verde escura de uma monstera escandente em seu tronco.
É uma árvore que cresceu na contra mão do usual e comportado de baixo para cima da maioria das árvores. Seu broto nasce no galho de uma árvore, suas raízes descem e ao atingir o solo, começam a se transformar em poderosas raízes. Quem a vê imagina que seja pra lá de centenária, mas foi devido a um expediente ”nada louvável” que, em menos de 40 anos de pura “ingratidão”, chega a alcançar um avantajado porte: ela estrangulou sua hospedeira – a árvore, que lhe serviu de berço e de escada – da qual se nota ainda algum vestígio de sua “vitima”, quase totalmente emparedado em celulose. As outras árvores que estão em seu caminho sofrerão as mesmas consequências. No Estado da Bahia é comum visualizar estes brotos de desenvolvendo até mesmo em construções civis.
O gênero Ficus, da família Moraceae, conta com mais de 1.000 espécies, em geral de folha perene, que apreciam climas amenos em regiões tropicais ou subtropicais e são muito usadas como árvores ornamentais. As flores são diminutas e estão ocultas em cápsulas polposas que depois se transformam nos frutos: um doce figo lampo é afinal um estojinho de flores.














Esta imponente família de árvores, abriga a rara Divindade Ìrókò, do qual possui poucos iniciados e consagrados, nos Terreiros Tradicionais da Nação de ketu. Em território africano, sua esposa chama-se Agboman e sua única irmã Ondo.
No sistema oracular de Ifá, Ìrókò esta relacionado com os Ọba Odú Òdi Méjì, Ìròsùn Méjì e Ìrẹtẹ̀ Méjì; com os Ọmọ Odú Ọ̀fún – Ọyẹku, Ofun – Ìrọ̀sùn e Ọ̀fún – Ọ̀wọnrin, entre outros e no sistema oracular do owó mẹ́rìndílógún com os Odú Ọ̀kànràn, Ìrọ̀sùn, Èjìonilẹ, Ọ̀sá, Ọ̀fún, Ọ̀wọ́nrín, Ejìla Ṣebọra, Èjì Ologbon, Ìká (principal), Obeogúndá, entre outros. A quantidade de figuras do oráculo acima citado, atesta a difícil tarefa de identificar esta rara divindade, que aos olhos daquele que não o conhece com profundidade, acaba por passar despercebido.


Ìrókò é o coletivo das Grandes Árvores, a verdadeira essência da fitolatria. Guardião das florestas centenárias e das mudanças climáticas, A representação da dimensão tempo – espaço e o guardião da ancestralidade. Seus mitos o descrevem como com um homem bonito e forte, que passeava a noite pela floresta com uma tocha na mão. Espirito Ancestral capaz de muitas mágicas e magias e respeitado por todos os seres. Sua essência impulsa os bons e maus pensamento dos caminhantes, pois é, a divindade de todos eles.


Ìrókò, possui algumas representações física além da própria árvore, ou seja, não tem “assentamento convencionais” e sim representações em ferros forjados. Seu principal àṣẹ esta plantado, enterrado, “acomodado” entre as poderosas raízes dessa imponente árvore. Seu tronco ostenta uma faixa ou laço branco, alertando e deixando bem claro aos demais, que ali reside o “sagrado”. Delimita-se o espaço de sua morada com uma cerca e portinhola. Nesse espaço deverá conter um fogareiro, utensílios domésticos para o preparo das oferendas, potes e jarros, enfim, todo o ritual de Ìrókò deverá ser realizado nesse espaço. Quando a necessidade de “limpar” este espaço, deverá ser usada uma vassoura específica da qual não poderá ser utilizada em nenhum outro espaço do Terreiro. “O que se utiliza na casa de Ìrókò não pode ser utilizado em qualquer outra casa.”
Os mitos, nos revelam que os pássaros míticos Kotopori (macho) e Ikujegbe (fêmea) foram os encarregados de espalhar a semente de Ìrókò do òrun para as diversas floresta do àiyé.
Muito se tem discutido sobre o culto de Ìrókò na gameleira branca, cujo o nome cientifico Ficus religiosa, onde esta árvore, esta mais relacionada à Ṣàngó. O termo Gameleira (Ficus doliaria), além de ser a designação comum a diversas árvores da família das Moráceas especialmente as do gênero Ficus com madeira utilizada para a confecção de gamelas e inúmeros objetos domésticos. Na antiguidade, quando o culto foi estabelecido em nosso país, os antigos sacerdotes teriam “tratado e acordado entre eles” de que somente poderia haver um iniciado em cada linhagem, rama ou família de santo. Nos tempos atuais, o culto a Ìrókò ainda continua cercado de segredos e mistérios.
Não se pode podar ou mesmo derrubar a árvore Ìrókò sem que antes sejam realizados determinados rituais. Quando haja necessidade de tal, cada pedaço da árvore que se derruba, este deve ser enrolado em pano branco com determinadas substâncias e despachado, numa espécie de rito fúnebre.
Esta proibição esta fundamentada em uma história de Ifá, que nos revela que: Ìrókò antes de vir a Terra, foi consultar Ifá, este lhe aconselhou que renderá homenagem à Èṣù, oferecendo-lhe um bode, um galo, um facão, um machado de lamina dupla e outros ingredientes, mas este se negou a realizar qualquer oferenda. Se considerava forte e invulnerável, já que seu porte avantajado, causava assombro a todos os seres. E ademas, sua casa era o centro de reuniões dos anciões e anciãs da noite, por isso se sentia tão seguro. Passando um tempo, Èṣù insatisfeito com a falta de oferenda, se vingou de Ìrókò. Ensinou aos seres humanos a eficácia da magia de seus galhos e folhas, deu-lhe o facão para podar; revelou o quanto era boa e útil a sua madeira, deu-lhe então o machado para derrubar. Èṣù dedicou todo o seu tempo, a tarefa de que os seres humanos perdessem o medo de Ìrókò e também de que, este não tinha nada de extraordinário, seria simplesmente uma árvore, assim como as outras. Desde esse momento esta madeira é tão cobiçada e proveitosa para os homens que as derrubam sem nenhum escrúpulo para seu próprios benefícios. Assim foi como o grande Ìrókò caiu sob a força da raça humana, como resultado de sua negligência em oferecer à Èṣù o que era de direito.
Os troncos não podem ser queimados e as folhas não pode serem cozidas. Não se pode subir nesta árvore, quando for necessário o uso de suas folhas, colhem-se as que despencaram por si só, ou seja as que estão caídas no chão. Aquelas com a parte superior voltada para cima, serão utilizadas para o “bem” e as voltadas para baixo servem para o “mal”. Para se extrair o sumo de suas folhas, se faz uso do pilão e de determinadas substâncias, não pode ser pilada com nenhuma outra folha. A medicina natural de Ìrókò é conhecida com o nome de ẹrọ Ìrókò e esta sucessível a diversos feitos tais como: o tratamento de mulheres estéreis e mesmo o alivio para os distúrbios mentais.
Na África, Ìrókò habita única e exclusivamente a árvore Igi Ìrókò, de nome científico Chlorophora excelsa , da família das Moraceae que, por se tratar de uma espécie nativa do território africano não existia no Brasil e por condições climáticas não foi para cá transplantada, embora, entre as mil espécies existente, exista uma que há substitua.
Para o povo Ioruba, esta é a mais antiga das árvores e considerada uma de suas quatro árvores sagradas normalmente cultuadas em todas as regiões que ainda praticam a religião dos Ioruba. No entanto, originalmente, Ìrókò não é considerado uma divindade que possa ser inciado e consagrado na cabeça de ninguém, somente deverá ser reverenciado e ofertado. Diferentemente do Brasil, onde houve raras iniciações desta magnifica divindade. Entre elas a nossa saudosa Mãe Cidália de Ìrókò (Cidália Solidade), que faleceu com 83 anos de idade e superou os 70 anos de de iniciada pelas mãos de Mãe Menininha do Terreiro do Gantois. Mãe Cidália, nasceu em 19 de fevereiro de 1930, bisneta legitima de africanos, foi apontada por Baba Isalẹ́, como filha de Ìrókò ainda na barriga de sua mãe. Esta senhora foi orientada por Mãe Menininha, a levar a criança para fazer santo aos 7 anos de idade.


Ìrókò é a morada de diversas entidades, principalmente a de espíritos infantis conhecidos ritualmente como Àbíkú e tais espíritos são liderados por Oluwere. Quando as crianças se veem perseguidas por sonhos ou qualquer tipo de assombração, é normal que se faça oferendas a Oluwere aos pés de Ìrókò, para afastar o perigo de que estes espíritos maléficos levem embora as crianças da aldeia para o òrun. Durante sete dias e sete noites o ritual é repetido, até que o perigo de mortes infantis seja afastado. Nem sempre essas precauções são suficientes para reter as crianças Àbíkú sobre a terra. Iyájanjansà (Chefe da sociedade dos Àbíkú machos) e Olikó (Chefe da sociedade dos Àbíkú fêmeas) são muito mais forte e ambos não deixam agir o que as pessoas tiverem preparado. “Contra determinados Àbíkú não há remédios; Iyájanjansà e Olikó os atraíra a força para o Céu”.
Inúmeras reuniões de Oṣo (bruxo) e Àjẹ́ (bruxas) são realizadas ao redor da árvore Ìrókò onde são realizados sacrifícios e oferendas as Divindades Tutelar destas Sociedade. Os mitos também nos revelam que, Yéwà divindade de rara beleza, costuma deitar-se entre as raízes do Ìrókò, afim de contemplar sua beleza e vastidão. Esta amplidão é conhecida entre o povo de santo como àṣẹ gbà-n-gbà.











A árvore Ìrókò não pode ser cortada antes de que haja determinados rituais. Obviamente que isto nem sempre é colocada em pratica, visto que sua madeira é altamente resistente e amplamente comercializada no mundo todo. As crenças locais revelam que as casa que a utilizam são assombradas, a própria madeira produz inquietantes ruídos e até mesmo um som horrível. Exemplo disto são portas fabricadas com esta madeira que abrem e fecham sem explicações lógicas.









O culto a Ìrókò é um dos mais populares em terras Iorubá e as relações com esta divindade quase sempre se baseiam na troca: um pedido feito, quando atendido, sempre deve ser pago pois não se deve correr o risco de desagradar Ìrókò, pois ele costuma perseguir aqueles que lhe devem. Há Ìrókò, em hipótese alguma se promete aquilo que não possa cumprir. Ìrókò está ligado à longevidade, à durabilidade das coisas e ao passar do tempo pois é árvore que pode viver por mais de 200 anos.

Baba Guido Olo Ajagùnà
(artigo de minha autoria publicado no Fórum Okitalande )




domingo, 6 de setembro de 2015

Mo Júbà gbogbo Babalàwo Òtitọ́ Àiyé

Apresento os meus humildes respeitos aos verdadeiros Babalàwo desse mundo”

O título desse “post” pode parecer estranho aos olhos de muitos iniciados e consagrados no Culto à Baba Òrúnmilà-Ifá, quanto ao termo “verdadeiro”. Não tenho a intenção alguma de ofender quem quer que seja, pois isso não faz parte da minha índole.

Denomino de verdadeiro, o Sacerdote de Ifá que tenha Ìwa Pẹ̀lẹ́ – O Bom Caráter, e não aquele que fica denegrindo a imagem de outros sacerdotes de seu próprio culto e muito menos sacerdotes e sacerdotisas do Culto aos Òrìṣà, dizendo que não podemos “fazer isso ou aquilo”. Sem mencionar aqueles que agem de maneira idêntica aos Evangélicos, ou seja, “Arrebanhar as Ovelhas”, sem a menor preocupação se o indivíduo será um escolhido de Baba Òrúnmilà.

Não podemos esquecer o fato de que, no principio do Candomblé Afro Brasileiro, especificamente a partir do Terreiro da Barroquinha, existia a presença de grandes Babalàwos africanos e que deixaram seus descendentes na Bahia e no Pernambuco. Desde então entre as celebres Ìyálòrìṣà e Babalòrìṣà da época se fizeram presentes, Martiniano Eliseu do Bonfim, Rodolfo Martins de Andrade, Manuel Rodolfo Martins, Tio Joaquim, Tio Faustino Dada Adengi, Tio Benzinho, Tio Agostinho, Tio Beneditino, Tio Joaquim do Egba entre outros.
Depois do falecimento de todos os Babalàwo, o Candomblé da Bahia ficou um período sem a presença dos Sacerdotes de Ifá, onde somente a partir da década de 90, com a vinda de Babalàwo africanos e cubanos, houve o renascimento do Culto de Ifá no Brasil. Não posso deixar de mencionar que entre eles estavam também os impostores de Ifá africanos e cubanos.

Durante o período dessa “lastimável ausência” da figura do Babalàwo, nosso Culto Lẹsẹ̀ Òrìṣà continuou sobrevivendo da mesma forma. Se a presença do Babalàwo fosse de suma importância e indispensável em nosso culto, o candomblé afro brasileiro deveria ter acabado junto com os Sacerdote de Ifá, o que de fato não ocorreu.

O Verdadeiro Baba e Ìyálòrìṣà, sabe perfeitamente seus limites dentro do culto; mas não é porque nós deixamos de “riscar e rezar Odù no ìyẹ́ròsùn” para que esse sagrado pó seja adicionado a certos àṣẹ, justifique o fato de sermos criticados e dizer que isso e aquilo esteja errado ou que isso e aquilo não existe. Ninguém tem o direito de nos dizer que aquela iniciação da qual não foi “sacado o Odù do ìyáwò” não tem validade alguma ou tenha que o fazer para que a consagração, as vezes “tão sacrificada e dolorosa” se faça completa. A ausência de um Ọba Eni Oriatẹ durante os ritos iniciáticos não se permite dizer que o noviço foi “bem feito ou mal feito”, entre tantos outros absurdos ditos e escritos, do qual fico a inteira disposição de “quem quer que seja” para um futuro debate sem limites, presencial ou virtual, desde que seja de maneira civilizada, catedrática, acadêmica e com bases fundamentadas; caso contrário não perca o seu tempo, para que eu não perca o meu mais valioso pouco tempo que disponho para as redes sociais.

Aqueles que me conhecem de verdade, sabe que me dedico profundamente aos estudos de Ifá e que há mais de 20 anos tenho a intenção de me iniciar e consagrar-se no Culto de Òrúnmilà-Ifá, mas até o presente momento, não senti a verdadeira confiança em absolutamente ninguém, seja ele Babalàwo africano, brasileiro ou cubano.

Talvez ainda não seja o momento exato para tal façanha, ou ainda não seja o tempo certo determinado por Baba Òrúnmilà. Mas tenham certeza de que se um dia me inciar em Ifá, não farei parte dessa “laia suja e imunda” que tentam de qualquer forma denegrir a imagem dos Sacerdotes de Òrìṣà dentro do afro brasileiro. Nós tratem com mais respeitos, pois o meu respeito vai acabar onde a sua ignorância começar!!!

Um fraterno abraço aos verdadeiros Babalàwo.

Baba Guido Olo Ajagùnà
(Ọmọ Òrìṣà afro brasileiro com muito orgulho)

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

ORÍ MÉJÌ – Duas Cabeças em apenas um corpo?

Hoje gostaria de expor um tema polêmico, muito debatido nas redes sociais, da qual está abarrotada de falsas informações, equívocos e conceitos distorcidos.

O termo Orí Méjì é comumente usado entre o povo de santo para designar indivíduos que possuam a duplicidade de Òrìṣà, em uma única cabeça. Para um melhor entendimento se faz necessário esclarecer que quando adjetivo o termo Méjì significa: dois, duas, casal, par, gêmeos, porém quando quando o referido termo se trata de um substantivo tem o significado de equivoco, falsidade.

Sabemos perfeitamente que durante o complexo e elaborado Rito Iniciático, o ápice da cerimônia será a consagração do noviço através do Òṣù – um amalgamado de substâncias mágico religiosa, do qual denomino de maneira mui particular, o DNA MÍTICO, ou seja, a substância mítica que carrega em si a individualização do Òrìṣà a ser consagrado. Essa junção e misturas de elementos sagrados, será fixada em um ponto preciso e especifico na cabeça do noviço. Obviamente não poderá existir “duas massas distintas” pois em todas as cabeças existem apenas um “ponto exato” destinado a receber o Òṣù.

Esse suposto “ìyáwòrìṣà orí méjì” receberia de que forma dois “Òṣù distintos de dois Òrìṣà distintos” em uma única cabeça física?

Outro fator importante a ser mencionado, é o fato daqueles que se submeteram a suposta “cerimonia de iniciação e consagração de um orí méjì” carregar e receber tudo em duplicidade, ou melhor dizendo, “tudo aquilo que um Òrìṣà receber o outro também receberá em absoluta igualdade”. Com exceção do mais importante entre todos eles o Òṣù.

Se realmente existe a necessidade e obrigatoriedade de ser iniciado e consagrado dois Òrìṣà diferentes em uma única cabeça, que não seja em uma única cerimonia de iniciação e sim em duas, pois em meu conhecimento e entendimento, não existe nenhuma possibilidade de iniciar uma pessoa para duas divindades em uma única vez.

Acredito que uma única pessoa possa ser iniciada e consagrada a várias divindades, quantas forem necessárias, como ocorre em território africano, do qual se trata de uma pratica comum entre os iorubás, embora não seja aceita e até mesmo muito criticada na tradição afro brasileira.

Podemos assentar, cuidar, zelar de quantos Òrìṣà forem necessário em nossa jornada religiosa, mas se formos iniciado e consagrado apenas uma única vez, pertenceremos a uma única Divindade Tutelar.

Não sou, não fui, não pretendo ser e nunca serei o “Dono da Verdade”; então o que aqui acabo de relatar é apenas o meu ponto de vista em particular e sempre respeitando os demais, sobre tudo aqueles que de certa forma se julguem Orí Méjì e aqueles que os iniciaram nos mistérios das religião.

Um forte abraço a todos.


Baba Guido Olo Ajaguna.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Ìyá Apáòka do Mogno africano no Velho Mundo para a Jaqueira no Novo Mundo...

Os mitos relatam que existiam três anciãs conhecidas pelos nomes de Ìyá Apáòka, Ìyá Mepere e Ìyá Bokolo, que habitavam, muito antes da fundação da Cidade de Ketu, uma cova localizada nas profundas raízes do imenso Òpó Mẹ́ta Ọ̀gàwó, ou seja, três robustos troncos de mogno africano, uma árvore africana da espécie Khaya grandifoliola da família das Meliaceae. Importante ressaltar que essas três Divindades foram de grande importância para a fundação da Cidade de Ketu.

Quando os descendentes da Cidade de Ketu chegaram ao Brasil, teriam que “acomodar” os fundamentos de Ìyá Apáòka, e assim fora obrigados a substituir o tradicional mogno africano, pela Jaqueira, uma árvore de origem asiática, da espécie Artocarpus intergrifolia da família das Moraceae, do qual foi introduzida no Brasil em meados do Século XVIII.

O porte da Jaqueira e a semelhança de suas folhas com o mogno africano, foram de fundamental importância para a efetiva substituição. Os antigos descendentes de escravos, lhe deram o nome de Tapónurin onde mais tarde passou a ser chamada apenas de Apáòka, em razão de ser a morada de uma divindade do mesmo nome, perdendo-se assim o seu antigo nome. Quanto ao culto à Ìyá Mepere e Ìyá Bokolo, nem sequer atravessaram o Atlântico!

O intuito desse “post” é ressaltar que várias espécies de árvores nativas do Continente Africano foram substituídas por espécies que aqui no Novo Mundo já existiam quando os Nagôs chegaram. De certo que muitas outras espécies foram trazidas por esse povo, sendo que poucas se adaptaram.

“Seja nas raízes de um mogno africano ou de uma Jaqueira, Ela sempre será a mesma Divindade, a nossa Grande Mãe Ìyá Apáòka”. Vamos acabar com essa “bobagem” de africanos e neo-africanos que criticam o culto de uma de nossas mais importantes divindades dentro do candomblé afro-brasileiro, dizendo que esse ou aquele Òrìṣà só pode ser cultuado em árvores africanas. “Vocês que são africanos da nova geração, quando chegaram aqui em MEU país, já encontram o culto que seus próprios antepassados aqui deixaram”. Voltem para o seu continente e preste seu culto à Ìyá Apáòka aos pés de um mogno africano, se é que ainda exista esse culto em seu país de origem, do qual eu muito duvido.

De volta ao assunto desse “post”, em meu entendimento, se Ìyá Apáòka não deseja-se ser cultuada em um pé de Jaqueira, ela não teria saído de seu território de origem e muito menos atravessado a imensidão do oceano; e se o fizesse teria de imediato retornado ao território iorubá. De uma coisa eu tenho certeza plena e absoluta:

“Ela ainda está e sempre estará entre os filhos da Nação de Ketu”... Ìyá mi O! Ìyá Nbanba! Ìyá Mọ! Ìyá Ọ̀dẹ́! Iba O!”

Baba Guido Olo Ajagùnà


domingo, 16 de agosto de 2015

A TRANSEXUALIDADE MASCULINA e o SACERDÓCIO FEMININO


A transexualidade é uma daquelas questões nebulosas que pairam sobre a nossa religião. A maioria das Ìyálòrìṣà e Babalòrìṣà preferem evitar o assunto, do que entender exatamente do que ele se trata. Essa pauta é evitada e muitas vezes distorcidas, principalmente quando se trata em relação ao sacerdócio, após o indivíduo se submeter a uma Cirurgia de Reatribuição ou Redesignação Sexual, ou seja, cirurgias que possam fazer seu corpo se parecer cada vez mais com o sexo do qual um indivíduo se identifica.

O intuito desse “post”, não é desrespeitar o transexual, pois tem todo o meu respeito, ou mesmo discutir sobre o seu corpo morfologicamente inverso à sua natureza psíquica ou se prefere ser definido como homem ou mulher segundo sua composição psíquica; e sim abordar o direito de um transexual ostentar legitimamente um Título (oyè) tradicionalmente feminino, principalmente o de Ìyálòrìṣà.

O transexual se travestir-se de “baiana” dentro de um Terreiro de Candomblé Tradicional não é tão grave, quanto o fato desse admitir e permitir, seja qual for o motivo, que um “homem” exerça ou ostente um “posto feminino” dentro de nossa religião. Hoje Ìyálòrìṣà, amanhã teremos uma Ìyálàṣẹ e quem sabe num futuro bem próximo, teremos um transexual ostentando o título de Ìyá kekere, Ìyá ẹfun, Ìyárọba e até mesmo uma Ìyálọ́de.

Em meu entendimento, não acredito que um transexual seja reconhecido aos olhos de Ìyámi Òṣòròngà e de todas as Ìyágbà como uma autentica mulher, esposa, fêmea e muito menos mãe. Então, onde se fundamenta esse direito? Direito outorgado por alguém?

Somente à nível de informação, espiritualmente, dentro do contexto da transição reencarnatória, o indivíduo transexual é o que traz dissociada a sexualidade de profundidade (personalidade sexual registrada na mente) do sexo de periferia, isto é, o seu psiquismo não está harmonizado com o gênero de que é portador. Assim, sob o ponto de vista anatômico, é portador de uma polaridade sexual inter distante do sexo que sente possuir e sofre intensamente, tendo conflitos psicológicos bem marcantes. Conforme sabemos, o espírito é dotado da bipolaridade, podendo, então, animar o corpo de um homem ou de uma mulher ao reencarnar.

Sabemos que durante a construção da neovagina, os testículos e pênis são removidos e em algumas técnicas cirúrgicas, a glândula bulbouretral, bem como a próstata, são mantidas para possibilitar que a vagina perineal onde antes não existia tenha alguma lubrificação natural.

O avanço da medicina, possibilitou ao transexual a oportunidade única na mudança de sexo, foram concluídas repercussões jurídicas, mas acima de tudo, a ciência ainda não consegue alterar o DNA de um indivíduo, portanto “ele” ainda é um “ser masculino em sua essência”, mesmo que sua fisionomia e características se apresentem ao contrário. Lembrando que ambas as glândulas ainda mantidas em seu corpo fazem parte do Sistema Genital Masculino.

Baba Guido Olo Ajagùnà.






quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Algumas informações acerca da Cerimonia do Olùgbàjẹ

A Cerimônia do Olùgbàjẹ é exclusividade do afro-brasileiro, sua origem remota desde a época do Terreiro da Barroquinha, depois que a primeira ìyáwò de Ọbalùàiyé foi iniciada e consagrada ao Deus da Varíola. Este caminho de Ọbalùàiyé vestia-se todo de preto, inclusive o seu Àṣọ Ìkọ – roupa confeccionada em fibra vegetal ou palha da costa, denominada de Azem entre os povos da nação Jeje. Após o término do Olùgbàjẹ suas roupas não podia ser guardadas e deveriam ser queimadas ritualisticamente. Esta cerimônia, que durava naquela época 14 dias, foi introduzida na ritualística com a finalidade de prolongar a vida, afastando as doenças e trazendo saúde a todos os membros da Comunidade Terreiro.
A etimologia dessa palavra nos levam a seguinte interpretação, após ser desmembrada: o substantivo Olù – abreviação de Olùwa, que tem o significado de senhor, mestre, dono; em junção com o verbo intransitivo gbàjẹ – aceitar uma comida. Um estudo nos leva à palavra Olùbájẹ – O termo Olù em junção com verbo transitivo bájẹ, que significa, comer com alguém, associar-se ou manter comunicação com algum indivíduo. Outro nos leva a palavra Olùbàjẹ – O Senhor da Putrefação, mas esse com certeza é um título de Ọbalùàiyé em relação a decomposição de um cadáver e sua relação com Eṣinṣin – a mosca varejeira. Alem de que a maior parte das doenças sob seu domínio, degeneram os tecidos dos seres humanos ainda em vida. No tradicional cântico dessa cerimônia: a palavra A! – interjeição, expressando alegria surpresa, admiração e contentamento; A – pronome, contração de Awa, nós (1ª pessoa do plural); Jẹun – verbo intransitivo comer, se alimentar; Bọ – verbo intransitivo, retornar, chegar e vir; e Aràiyé – substantivo que significa povo ou humanidade.
Como sempre digo: “cantiga de candomblé, não se considera apenas a tradução e sim a interpretação”, então vou deixar para que cada leitor, faça a sua interpretação de acordo com o seu entendimento, pois não sou o “dono da verdade absoluta”. Seja qual for a palavra, Olùgbàjẹ ou Olùbájẹ, ambas designam um ritual onde são servidos alimentos aos participantes em uma verdadeira comunhão com o Òrìṣà Ọbalùàiyé, ou seja em minhas palavras, um legitimo e autentico Abánijẹun – Aquele que reparte o mesmo prato com outro.
Muito tem se discutido a quantidade e as iguarias que devam ser oferecidas durante a cerimônia, suas variedades e tipos, diferem de uma linhagem a outra. O mais tradicional de todos, chegam num total de vinte e uma comidas, sendo sete de caráter publico e quatorze de caráter privado, das quais permanecem acomodadas dentro do Ile Iji – A Casa de Ọbalùàiyé .

Sabemos que as de caráter publico são:
  1. Feijão fradinho cozido e refogado.
  2. Feijão preto cozido e refogado.
  3. Milho de galinha cozido em água com sal.
  4. Acaça branco.
  5. Milho de canjica branco cozido.
  6. Acarajé.
  7. Carne dos animais oferecidos, cozidos e refogados.

Todas essas comidas serão acomodadas no chão, ao lado de fora do salão principal e servidas a todos os presentes, em Ewé Lara – folha de mamona, e o que nela sobrar, será depositada em um grande balaio de palha, que se transformará em um grande “carrego”.
Tradicionalmente, um Terreiro de Candomblé só tem o direito de realizar a referida cerimonia, se nele existir um ou mais filhos de Ọbalùàiyé, ou seja, não se “pega emprestado” de casa alheia, ou que o dirigente do terreiro pertença a esse Òrìṣà.

Um fraternal abraço a todos.

Baba Guido Olo Ajagùnà.



terça-feira, 4 de agosto de 2015

Ṣaṣara ọwọ – O Cetro de Ṣopọnnà



Wárin Warifun Ṣaṣara Ile wò Olorinjena wò Wárin Warifun Ṣaṣara Ile wò 
Olorinjena wò

“Homenagear um Rei Superior, o Ṣaṣara na casa cuida de um doente e previne as enfermidades Senhor de Ijena a cidade mítica de Ṣopọnnà”

O emblema ritualístico mais importante do Culto à Ọbalùàiyé é denominado de Ṣaṣara ọwọ. Trata-se de um atado de nervuras de folhas da palmeira; revestidos de tecidos e palha da costa; ornamentados com uma grande quantidade de búzios, ostentando opulência e as mais diversas contas; onde dentro deste acomoda-se um de seus maiores enigmas, o segredo da vida e da morte, a cura ou a proliferação das doenças, sobretudo as que alteram a temperatura corporal do enfermo.

Os feixes dentro do corpo do Ṣaṣara representam coletivamente os ancestrais, os mortos contidos na terra. Devem ser confeccionados sob os cuidados do Sumo Sacerdote do culto, denominado de Asogba, pois ele está altamente qualificado e preparado para manipular representações tão poderosas.

Tem a finalidade de controlar os Espíritos da Terra para o seu espaço sagrado, eliminar as energias negativas da comunidade, sobretudo as doenças, proporcionando a longevidade. Nele esta o segredo da vida e da morte, a cura ou a proliferação das doenças, sobretudo as que alteram a temperatura corporal do enfermo. Quando as doenças são liberadas do, este tem como desígnios divinos ou punição de uma comunidade no intuito de uma renovação de vida.

Em algumas linhagens o Ṣaṣara de Ọmọlu se diferencia ao utilizado por Ọbalùàiyé do qual contém um detalhe a mais, a ponta de uma lança em sua extremidade e suas cores são características, o preto e o branco.

O Ṣaṣara que não tenha sido preparado adequadamente, através das cerimônias de consagração, não passa de um simples ornamento e longe de ser um “objeto sagrado”. Podemos claramente observar belíssimas obras de artes, nas mais variadas Casas de Artigos Religiosos. Exemplares esplendidos por fora, porém “ocos de sagrado” por dentro.

Baba Guido Olo Ajaguna


ṢAGBEJẸ - O Tabuleiro Mitico de Ọbalùàiyé

Antigamente no mês de agosto, esperávamos ansiosamente a visita de Ọbalùàiyé em nosso Terreiro de Candomblé, ou seja, a chegada do ṣagbejẹ. Hoje raramente presenciamos esse rito e costume perdido no tempo. Descrevo um pequeno resumo de uma cerimônia da qual considero extinta ou quase que extinta.

O DIA DO ṢAGBEJẸ

Cerimônia afro-brasileira, onde as mulheres em um tabuleiro forrado com milho-alho estourados, das quais elas denominam de “flor do velho”, carregam o principal emblema de Ọbalùàiyé o Ṣaṣara-ọwọ seus colares de conta, terra cota, corais e búzios. Este “tabuleiro” a representação mítica desta divindade, visita sete Terreiros diferentes durante os sete dias que antecedem os Ritos do Olùbàjẹ. Ao chegar a cada Terreiro, este será recebido ritualisticamente onde serão entoadas orações e rezas à Ọbalùàiyé e Nàná. Durante este ritual, será depositado aos pés do tabuleiro, senão aos próprios pés de Ọbalùàiyé grãos e uma quantia em dinheiro que serão de uso exclusivo nas despesas do Olùbàjẹ. Cada membro do Terreiro receberá uma porção de gbùgbùrù (pipoca) e desta saberá como proceder.

Interessante notar que a palavra ṣagbe – significa pedir esmola e a palavra jẹ – comer; então a palavra ṣagbejẹ poderia perfeitamente ser interpretada como “pedir esmolas para comer”. Obviamente que não podemos levar a palavra “esmola” num sentido pejorativo e sim entender que há uma troca entre o homem e a divindade. Troca esta que ao darmos grãos e dinheiro para comprar “comida” para “O senhor da terra” este nos dá um de seus principais grãos que nutrem o homem – o milho. Os antigos dizem que aqueles que participam do terão vida próspera e nunca há de faltar comida em casa, pelo menos os grãos.
Quando da Cerimônia do Olùbàjé este “tabuleiro” será apresentado no salão, carregado por Ọya, onde será distribuído uma porção de gbùgbùrù e muitos que recebem o milho, em gratidão acabam por depositar algumas quantias em dinheiro sobre os grãos. Em algumas linhagens o ṣagbejẹ sai antes da “mesa” e em outras depois da “mesa”.

Por favor não confundam o ṣagbejẹ com aquelas pessoas vestidas de baiana que ficam com uma peneira em pleno sol do meio dia, distribuindo milho de pipoca americano e arrecadando dinheiro. Este tipo de procedimento nada tem haver com a nossa ritualística.

Um forte abraço a todos


Baba Guido Olo Ajaguna