segunda-feira, 20 de junho de 2016

A FONTE DE ORIGEM DE UM ORIN ASA Ọ̀SÁNYÌN LIGADO À ṢÀNGÓ



Não vejo a necessidade de descrever o referido cântico, sendo que cada qual canta de uma forma ou de outra, assim como todas as cantigas de candomblé; mas acredito que independente de uma letra acrescida ou subtraída, a essência do cântico, permaneça a mesma. Muito conhecido entre o povo de santo, do qual é entoado durante os Ritos do Sasányìn, pois aquele que o conhece irá identificá-lo em “negrito” ao longo do texto.

Ogbè - Ọ̀bàrà

Ifá diz que esse Odù em Ire prenuncia vitória sobre os adversários do 
consulente para quem Ogbè - Ọ̀bàrà  é revelado. Ifa diz que esse consulente 
precisa oferecer sacrifícios e realizar rituais para Ṣàngó.
E assim disse Ifá:

Ogbè níí bo Àrìrà mọlẹ
Àrìrà níí bolẹ
Níí bogi oko
Díá fún Olúkòso làlú Jẹnrọlá
ọmọ arígba-ota ṣẹgun
Igbà ti nbẹ láàrin ọtá

Ogbè é aquele que cobre a tempestade do Trovão
O Relâmpago está cobrindo a terra
Ele abrange as árvores da fazenda
Foram os que lançaram Ifá para Olúkòso Lalu Jẹnrọlá
que usou 200 pedras para vencer os seus adversários
Quando estava no meio de seus inimigos

Um dia Ṣàngó estava dormindo e acordou no meio de seus inimigos. 
Era difícil para ele tomar qualquer decisão em sua vida. 
Cansado de sua existência, Ṣàngó foi consultar Ifá.
Como ele poderia derrotar seus inimigos? 
O Babalawo garantiu-lhe que iria ser temido, respeitado e reverenciado
por seus inimigos. Tanto os amigos e inimigos, não teriam forças capazes
de enfrentá-lo. Ele foi aconselhado para oferecer em sacrifício um galo, 
óleo de palma e 200 seixos, grande almofariz e uma quantia em dinheiro. 
Os seixos foram colocados dentro do almofariz e outro galo foi oferecido. 
Ele realizou a oferenda. Uma enorme tempestade se formou no céu, 
os relâmpagos e trovões causaram temor aos inimigos de Ṣàngó e esses 
se dispersaram em uma grande confusão entre eles. A partir desse dia Ṣàngó
foi respeitados não só por seus inimigos mas também por seus amigos.
 
Ogbè níí bo Àrìrà mọlẹ
Àrìrà níí bolẹ
Níí bogi oko
Díá fún Olúkòso làlú Jẹnrọlá
ọmọ arígba-ota ṣẹgun
Igbà ti nbẹ láàrin ọtá

Ogbè é aquele que cobre a tempestade do trovão
O Relâmpago está cobrindo a terra
Ele abrange as árvores da fazenda
Foram os que lançaram Ifá para Olúkòso Lalu Jẹnrọlá
que usou 200 pedras para vencer os seus adversários
Quando estava no meio de seus inimigos

Wọn ní kó sákáal, ẹbọ ní ṣíṣe
Ò gbẹbọ, ó rųbọ
È̀dọọ yín ì bá gbó
Ę ó dúró d’Àrìrà?

Ele foi orientado a oferecer sacrifício
Ele cumpriu o sacrifício 
Se o seu fígado é tão forte quanto você pensa 
(se você é tão atrevido quanto pensas)
Por que você não esperou e enfrentou o Raio?

Kí l’Àrìrà fi ṣẹtẹ?
Igba ọta
L’Àrìrà fi ṣẹtẹ
Igba ọta
 
O que foi que Ṣàngó usou para derrotar a conspiração?
Duzentos seixos
Foi o que usou Ṣàngó para derrotar a conspiração
Duzentos seixos
 
Ifa diz que o consulente irá derrotar seus inimigos e suas conspirações.
Tantos os amigos o respeitarão, assim como seus inimigos o temerão.


 

Baba Guido Olo Ajaguna.

domingo, 19 de junho de 2016

I CHING e o ORÁCULO DE IFÁ

A principio, o título dessa postagem, pode parecer estranho aos olhos de meus leitores. Mas o intuito deste new post é apresentar alguns pontos de semelhanças nos métodos divinatórios do I Ching (chinês) e o método de Ifá (iorubano).

De suma importância mencionar, que os fenômenos dos oráculos arcaicos não estão somente limitados a China e a África, pois podemos encontrá-los nas mais diversas culturas, sob as mais diferentes roupagens. Entendo que os oráculos são manifestações do mesmo espírito de busca de interpretação do desconhecido.

Em uma opinião mui particular, sem desdenhar os demais oráculos existentes, o enorme êxito despertado pelo I Ching e Ifá em todo o mundo, decorre da exatidão de suas respostas.

A origem deles ainda é de difícil verificação. O fato indiscutível é a sua constância em ambos os continentes. Pertencem ao subsolo da raça humana e parecem provir de uma mesma camada do inconsciente coletivo onde vamos encontrar os arquétipos. 

Podemos formular hipóteses sobre as suas origens uma delas nos falam que ambas as tradições são extraterrena. Deparamos personagens míticos da mesma espécie nas duas culturas referente às origens dos povos. E em todas elas a mesma indicação de uma origem extraterrestre, ainda que embora, essa teoria seja de grande polemica.

Limito-me a descrever o complexo método de manipulação de ambos os oráculos, assim como seus ritos propiciatórios que antecedem a consulta, pois seu contexto não cabe nesse trabalho.
Para se obter os símbolos do I Ching, denominado de hexagrama serão utilizados cinqüentas varetas de caule de milefólio (Achillea milefolium – Asterraceae).


Esse signo será formado por dois trigramas. Dessas 50 varetas, uma será retirada e as 49 restantes serão divididas em quatro grupos; deverão ser manipuladas por seis vezes, e a cada manejo será registrada uma linha cheia ou vazada em sentido horizontal. Os traços lineares devem ser registrados de baixo para cima. Dentro desse sistema divinatório existem 8 trigramas primários que dão origens a 64 hexagramas, ou seja, 8x8.


 No caso de Ifá, os símbolos são denominados de Odù, e para se obter seu registro, são utilizados dezesseis coquinhos (nozes) de um tipo especial de palmeira de dendê que ao invés de apenas dois olhos como nas palmeiras comuns, apresentam três ou mais olhos. (Elais guinessis - Idolátrica - Palmae ).




Esse signo, do qual tomo a liberdade de denominá-lo de octograma, será formado por dois tetragramas. Os respectivos caroços, conhecidos pelo nome de Ikin Ifá serão manipulados por oito vezes, e a cada manuseio será registrada um traço único ou duplo, em posição vertical. Inserido no sistema divinatório de Ifá existem 16 signos primários que darão origens a 240 signos secundários, totalizando em 256 símbolos, ou seja, 16x16.  Da mesma forma que o I Ching, os traços devem ser riscados de baixo para cima.
(fotos dos caroços, tetragrama e octagrama)



“A identidade é flagrante”



Observem que o hexagrama do I Ching é o resultado da fusão de dois trigramas, em contrapartida com a fusão dos dois tetragramas, que dão origem ao octagrama de Ifá, onde as linhas extremas se fundem “numa só” comum aos dois oráculos, pois tanto um trigrama, assim como um único pentagrama, não poderia ser concluída a consulta ao oráculo.


É interessante notar que o número 4 (a unidade quaternária) básico na contagem das varetas do I Ching, está presente no Oráculo de Ifá se comparado ao número 16 (4x4).

Tanto no I Ching como no Ifá, existe um método mais rápido de se obter os respectivos símbolos; no primeiro a utilização de três moedas chinesas que serão lançadas por seis vezes.


No segundo é utilizado uma corrente com oito favas (Schrebera arborea - Oleacea), conhecidas pelo nome de Ọ̀pẹ̀lẹ̀ Ifá. Com um único lançamento do rosário divinatório aparecem 2 figuras que possuem um lado côncavo e outro convexo, que combinadas, formam o Odù.





Outro fator interessante, é que após o registro tanto dos signos do I Ching, assim como os signos de Ifá, uma série de narrativas são iniciadas, em um texto rico em parábolas, metáforas e personagens míticos.

Em tempos atuais, as sucessivas edições e comentários sobre o I Ching e Ifá, bem como inúmeros grupos de estudos nas maiores universidades do mundo, a eles dedicados, são uma prova de que os seus ensinamentos, pouco ortodoxos em matérias de ciência, são uma realidade que não pode ser contestada.

Cabe-nos agora referirmos-nos a importância que esses ensinamentos arcaicos podem trazer ao nosso mundo. Acredito que há uma necessidade urgente de reformulação dos padrões tradicionais científicos, cito, “Religião e Ciência se fundem, mas não se confundem”.

Entendo que esteja acontecendo no Mundo Espiritual à “Revolução equivalente à ocorrida no Mundo da Ciência” quando, na Renascença, as concepções homo centradas foram substituídas por um universo de múltiplas dimensões.

O pensamento racional, lógico, concreto, irá ser abalado gradativamente à medida que técnicas arcaicas vão ressurgindo e demonstrando a sua extrema adequação no tratamento dos fenômenos. Nota-se desde um século atrás, aproximadamente, uma incontida sede pelos métodos arcaicos.

Todos os caminhos são validos quando podem levar o homem ao encontro de si mesmo; mesmo que essa busca usou métodos não convencionais para alguns. Deixemos de lado os nossos preconceitos prontos para compreender a linguagem que os oráculos nos fala, “o som de idades perdidas ressoa em suas palavras”.


Baba Guido Olo Ajaguna

quarta-feira, 15 de junho de 2016

ÒS̩ÙPÁ – A Lua



ÒS̩ÙPÁ – A Lua

O termo Òs̩ùpá esta averbado nos dicionários Yorubá – Português para a palavra “Lua”. Entretanto, dentro de um contexto religioso, não se refere apenas ao nome de um corpo celeste e sim de uma Divindade, cuja essência é puramente feminina, da qual nasce no Odù Ogbè-Òsá.

Essa enigmática Divindade, também conhecida por seu epíteto Ìkán Ọrún – Um Pingo no Firmamento [Odù Ọkànràn-Òfún] revela seus poderes sobrenaturais em vários Odù Méjì e seus Ọmọ Odù.

Os princípios metafísicos expressos nos Signos de Ifá, postulados da física hiperdimensional afirmam que os portais são abertos e fechados no Àiyé – Terra, como resultado da interação de outros planetas, do sol e da lua. Vejamos algumas citações da Lua dentro do corpo dos seguintes Odù:

Odù Ogbè-Ọyẹkú
“Apenas uma Lua é muito mais luminosa do que todas as Estrelas”  “A Lua Cheia atingiu seu mais luminoso, anunciando um novo dia”

Odù Ogbè-Òsá
“Seus pedidos devem ser dirigidos à Órùn – Sol e Òs̩ùpá – Lua” “Revela o Adura – Oração, que deveremos fazer a primeira Lua do Ano Novo”

Odù Ogbè-Òfún
“Com ou sem a Lua, o Ọba (Rei), sempre será respeitado quando o encontramos” “A Lua sobre Ọyọ, ajuda o Alafin (Senhor do Palácio), a saber, o que esta acontecendo nas províncias” “Revela de como Òs̩olofín outorgou que a Òs̩ùpá reina-se somente durante a noite”

Odù Ìwòri Méjì
“As conseqüências pelo fato de Òs̩ùpá não ter realizado o sacrifício determinado por Ifá”

Odù Ìwòri-Irosun
“A guerra entre o Povo que cultuava Órùn e o Povo que cultuava Òs̩ùpá”

Odù Iwori-Irete
“A Terra onde de dia fazia muito calor e a noite muito fria, onde no principio muitos homens morreram”

Odù Òdi-Ògúndá
“Ifá de Òs̩ùpá proíbe seus filhos em ficar ao relento do luar”

Odù Ọkànràn-Ògúndá
“Determina que em certas ocasiões se ofereça Saraẹkọ à Òs̩ùpá”

Odù Ògúnda-Ọkànràn
“A ligaçã entre Oronã-Àpádá e Òs̩ùpá” “Um sacrifício à Òs̩ùpá”

Odù Ògúndá-Òs̩é
“A ligação entre Òs̩ùpá e o período menstrual da mulher”

Odù Òsá Méjì
“Rege as relações existentes entre Àiyé e Òs̩ùpá” “Os pássaros que desejavam destruir o algodoeiro de Ọbatala pedem ajuda à Òs̩ùpá”

 Odù Òsá-Òdi
“Porque os pescadores se orientam pelas fases da lua, para que suas pescarias tenham êxitos”

Odù Òtúrá Méjì
“O Sol não pode capturar a Lua”

Odù Òs̩é-Ogbè
“A influência de Òs̩ùpá em seu Quarto Minguante sobre as mulheres”

Odù Òs̩é-Ọyẹkú
“Se conhece a Terra pelo barro e o Céu pela Lua”

Odù Òfún Méjì
“Revela que seu astro regente é a Lua” “A Terra da Escuridão” onde somente existia a Luz do Luar.

Odù Òfún-Ogbè
“Nasce à cerimônia do sacrifício à Òs̩ùpá.

 Odù Òfún-Òsá
“Os fenômenos e correntes astrais de Òs̩ùpá e seu ciclo lunar” “A rivalidade entre a luz do solar e a luz do luar”

A etimologia da palavra Òs̩ùpá ainda se torna um mistério para a compreensão humana, do qual repousa na obscuridade.

A maioria das sociedades tem honrado a presença da Lua como um Ser Místico, sobre tudo a Sociedade Gẹlẹdẹ, onde em noite de lua crescente durante as reuniões denominadas de Ọrọ Ẹfẹ, surgem dançarinos carregando mascaras, onde podemos notar claramente o símbolo da lua crescente, enquanto outros surgem com mascaras, onde a “meia lua” esta em uma posição invertida.







A simbologia da lua crescente, durante o Ọrọ Ẹfẹ esta associada ao fato de permitir que todos possam ver claramente e desfrutar dessa sagrada cerimônia. “A Luz da Lua Crescente aclara como os olhos de Òs̩olófìn, dão claridade a todos nós” [Odù Ogbè-Òsá].

Outro poder simbolizado pela lua crescente é também uma referencia ao “tempo do tempo” da cerimônia e a tradição de uma vigília; se trata do momento mais apropriado para apelar às mulheres idosas e outras Divindades Anciãs, que são mais atentas durante as horas de escuridão. “A afinidade sagrada entre a Lua e as Mulheres é encontrada dentro de nosso útero, aquele lugar escondido que se abre para revelar nosso fluxo sagrado, seguindo em uníssono, o movimento da lua ou o surgir de um novo ser” [Ìyá Ademuyiwa].

Durante o Ọrọ Ẹfẹ são recitados várias canções populares que fazem alusão à Òs̩ùpá. Essas canções são denominadas de Ẹka, que nem sempre são longas. Muitas vezes eles são breves, um tipo de condensado do texto mais longo, que pode ser repetido várias vezes, ou podem ser considerados imagens verbais sucintas que evocam um contexto mais amplo. Como um provérbio ioruba explica, “é necessário dar apenas metade do discurso, para a pessoa bem educada, dentro dele”, isto é, “um fragmento é suficiente para recordar um texto ou um contexto inteiro”. A Ẹka abaixo é um fragmento que alude a uma canção popular:

...la la la la e jó e e Òs̩ùpá jó e...
...o le l’Òs̩ùpá ko le já...

Com grande brevidade evoca uma canção sobre um eclipse, comparando-o a uma luta entre Órùn – O Sol e Òs̩ùpá – A Lua; e que mesmo assim a Lua continua a seguir o seu caminho dançando.

A relação entre Òs̩ùpá e os Òrìs̩à, principalmente com as Divindades Fluviais é representada por uma Lua Crescente em miniatura, presa a uma corrente de elo, com vários outros emblemas também em miniatura. A essa peça que complementa os “assentamentos” de nossas divindades é popularmente denominada entre o povo de santo de “penca”.

Em algumas linhagens, ou seja, na minoria delas, antes de qualquer rito ou cerimônia, de pequeno ou grande porte, a Lua é consultada para saber em que fase lunar a mesma se encontra; enquanto que para algumas linhagens isso não passa de meras superstições e crendices europeias.

Baba Guido Olo Ajaguna





terça-feira, 6 de outubro de 2015

AS DROGAS E O SAGRADO

"Uma Luz nas Trevas"


Em nossa sociedade moderna, o doente toxicômano é frequentemente visto em várias esferas religiosas e dentro de nossa religião não é diferente. Muitos são aqueles que adentraram nosso culto com o intuito de sanar sua patologia; alguns procuram a religião como um tratamento alternativo, baseado em uma aliança entre a nossa medicina tradicional a medicinal moderno, ou seja tratamento clínico e obviamente outros não reconhece sua enfermidade psíquica, somente procurando ajuda quando ultrapassar com estrépido a barreira do senso ou da realidade comum. O Tradicionalismo reza que o “senso da vida” está estreitamente ligado à noção de sagrado na medida em que neste contém valores mais profundos da existência como a vida e a morte. Muito tem se discutido sobre a questão da Matéria, Espírito e Espiritualidade constituírem um todo, então, refletir sobre o “senso e a realidade” é refletir sobre a Vida.

O toxicômano teria perdido ou poderá vir a perder a noção do sagrado? Sabemos que a religiosidade e a espiritualidade vêm sendo claramente identificadas como fatores protetores ao consumo de drogas em diversos níveis. Estudos têm apontado para evidência de que as pessoas que frequentam regularmente um culto religioso, ou que dão relevante importância à sua crença religiosa, ou ainda que praticam, no cotidiano, as propostas da religião professada, apresentam menores índices de consumo de drogas lícitas e ilícitas. Além disso, os dependentes de drogas apresentam melhores índices de recuperação quando seu tratamento é permeado por uma abordagem espiritual, de qualquer origem, quando comparados a dependentes que são tratados exclusivamente por meio médico.

Desde a antiguidade, os grandes sacerdotes estimulavam um importante “ponto” de nosso cérebro: a Glândula Pineal, que acreditasse desempenhar um importante papel na espiritualidade do Homem e funciona como um elo de ligação entre o corpo e o espírito, em resumo neste ponto reside a “consciência espiritual” do Homem refletida através do corpo físico. Para um melhor entendimento sobre esta polêmica questão, desmembro o assunto em dois níveis: o Mundo Científico e o Mundo Religioso.

No Mundo Científico.

A Glândula Pineal ou epífise neural, apesar das funções fisiológicas desta glândula serem muito discutidas, parece não haver dúvidas quanto ao importante papel que ela exerce na regulação dos chamados ciclos circadianos, que são os ciclos vitais (principalmente o sono) e no controle das atividades sexuais e de reprodução. Há algumas décadas, acreditava-se que a Glândula Pineal fosse um órgão vestigial, assim como o apêndice vermiforme em humanos, sem função atual. No entanto, mesmo órgãos vestigiais podem apresentar alguma função, ocasionalmente diferente da função do órgão do qual se originou. Na Universidade de Yale descobriram que a melatonina está presente em altas concentrações na pineal. A melatonina é um hormônio derivado do aminoácido triptofano, que tem outras funções no sistema nervoso central. A produção de melatonina pela pineal é estimulada pela escuridão e inibida pela luz. O Jornal FASEB publicação oficial do Federation of American Societies for Experimental Biology, publicou experimentos que a Glândula Pineal podem influenciar a ação de drogas de abuso como a cocaína e antidepressivos e pode também contribuir na regulação da vulnerabilidade neuronal a lesões.

No Mundo Religioso.

Dentro do contexto religioso Iorubá, essa glândula esta ligada ao Orí Inú “a cabeça interior” e Ọ̀rúnmìlà, ou seja, ao Saber Divino. Nela está contida a essência da personalidade, o verdadeiro caráter, o Espírito do Homem que emana diretamente do Deus Criador – Olódùmarè.
Orí Inú é o Ser Interior ou o Ser Espiritual do Homem e é imortal. O Corpo Literário de Ifá, mais precisamente no Ọmọ Odù Ogbè Ogúndà, nos revela que Orí Inú tem a supremacia sobre o Orí Òde “a cabeça física”. Isto sugere, portanto, o domínio do Espirito sobre a Matéria, que o sucesso ou fracasso do Ser exterior depende essencialmente da natureza dinâmica do interior do Homem e atua como fusão entre nosso consciente e inconsciente. Sendo a parte mais importante do corpo, tem prioridade sobre os ritos litúrgicos, sobre tudo os ritos iniciáticos e constantemente “fortalecido” através da transmissão de àṣẹ, durante os ritos de Iborí que visa restaurar o equilíbrio e a harmônia entre as duas partes.

Na concepção de outras crenças.

“Os Hindus a conhecem como Shakra Agna, “o chacra do terceiro olho” o principal órgão do corpo, possuidor de dois chacras ou centros de energia responsáveis pelo desenvolvimento extra físico, como receptores e transmissores de energia vital.”

“A glândula pineal tem sido considerada – desde René Descartes em meados do século XVII, que afirmava que nela se situava a alma humana - um órgão com funções transcendentes. Além de Descartes, um escritor inglês com o pseudônimo de Lobsang Rampa, entre outros, dedicaram-se ao estudo deste órgão. Com a forma de pinha (ou de grão), é considerada por estas correntes religioso filosóficas como um terceiro olho devido à sua semelhança estrutural com o órgão visual. Localizada no centro geográfico do cérebro, seria um órgão atrofiado em mutação com relação em nossos ancestrais.”

“Os defensores destas capacidades transcendentais deste órgão, consideram-no como uma antena. A glândula pineal tem na sua constituição cristais de apatia. Segundo esta teoria, estes cristais vibram conforme as ondas eletromagnéticas que captassem, o que explicaria a regulação do ciclo menstrual conforme as fases da lua, ou a orientação de uma andorinha em suas migrações. No ser humano, seria capaz de interagir com outras áreas do cérebro como o córtex cerebral, por exemplo, que seria capaz de decodificar essas informações. Já nos outros animais, essa interação seria menos desenvolvida. Esta teoria pretende explicar fenômenos paranormais como a clarividência, a telepatia e a mediunidade."

“A Doutrina Espírita dedica-se à formulação destas explicações desde Allan Kardec em meados do século XIX. Na obra Espírita Missionários da Luz, ditada pelo espírito de André Luiz, através da psicografia do médium Francisco Cândido Xavier, a epífise neural é descrita como a glândula da vida espiritual e mental. Para a Doutrina Espirita, este órgão de elevada expressão no corpo etéreo. Preside os fenômenos nervosos da emotividade, devido a sua ascendência sobre todo o sistema endócrino, e desempenha papel fundamental no campo sexual. Na mesma obra, André Luiz descreve ainda que a epífise está ligada à mente espiritual através de princípios eletromagnéticos do campo vital, que a ciência formal ainda não pode identificar, comandando as forças subconscientes sob a determinação direta da vontade. Na atualidade, o assunto é estudado pelo especialista Dr. Sérgio Felipe de Oliveira. Segundo ele, a pineal seria capaz de gerar forças psíquicas a todos os armazéns autônomos do órgão.”

Apesar de alegações de diversas correntes de que a pineal seria uma "antena" por onde a Alma transmitiria os pensamentos para o cérebro, a extração completa da glândula por cirurgia, realizada em casos de tumores benignos ou malignos, não leva à morte ou qualquer alteração na capacidade de pensamento.

Entendo que aqueles que iniciam e se consagram dentro de nossa religião, passam a ter duas vidas: a religiosa e a profana. Certo de que a primeira influência por demais sobre a segunda... Se analisarmos atentamente o texto acima descrito, poderia perfeitamente concluir que as drogas afastam os adeptos da verdadeira essência do sagrado... Vários são os sacerdotes, principalmente os Babalawó afirmam categoricamente, que o consumo de drogas “enfraquece o poder” recebido durante os ritos litúrgicos; dificulta a comunicação entre os dois planos de existências ọ̀run – àiyé “o invisível e o visível” “o espiritual e o material”. O mais grave de tudo, que a droga implica profundamente no Ìwà Pẹ́lẹ̀ – O Caráter do Homem, de suma importância no ciclo de vida de um indivíduo religioso.

Baba Guido Olo Ajagùnà



quarta-feira, 23 de setembro de 2015

PÈPÉLE – O ALTAR DOS DEUSES IORUBÁS.

O vocábulo pèpéle esta averbado no Dicionário Yorubá–Português, com o significado de “banco de terra feito para dormir, banco de barro, barranco”. Entretanto, dentro do contexto religioso esse substantivo, tem a interpretação e conotação de “Altar”.

Sabemos que no interior dos templos localizados na Mãe Africa, os objetos sagrados que representam as Divindades do Panteão Iorubá, não estão depositados diretamente no solo e sim sobre um piso sobre saliente feito de barro com determinados aglomerados que sacramentam o local. Nesse pèpéle são realizados os ritos de sacrifícios e oferendas.

Em Cuba, especialmente em Matanza, onde antigos escravos propagaram e perpetuaram a Religião dos Iorubás, os seguidores da Regla de Ocha, tem o hábito de colocarem os recipientes que representam suas divindades em belíssimas cristaleiras ou antigos oratórios, sob a influência do sincretismo religioso afro-cubano. Salvo algumas divindades que se recusam a “morar” nessas mobílias antiquárias, e ordenam que sejam depositados sobre pedras, vasos de barros ou porcelanas, troncos de árvores, almofariz de madeira, pilastras ou diretamente no solo. A Tradição Lucumi exige que esses pèpéle, denominados de “Trono” sejam sacramentados através dos ritos propiciatório do sacrifícios.

Nos Terreiros Tradicionais da Bahia e seus descendentes, os pèpéle são construídos na maior parte em alvenaria convencional, que segue um certo padrão que identifique o Ojúbọ, denominado de “Santo da Casa” ou “Assento Central”. Cada quarto de santo que tenha o seu pèpéle, tem a sua denominação especifica, do qual me reservo no direito de não revelar seus nomes. Em meu conhecimento o único pèpéle que ainda se mantem no barro, seria o Ojúbọ Ọbaluàiyé.

A “super lotação” e o “limitado espaço metropolitano” fazem com que alguns dirigentes sejam obrigados a montar prateleiras, para acomodar a imensa quantidade de “assentamentos” individuais dos membros da casa de santo. Nesse caso a acomodação das vasilhas nas prateleiras, são acomodadas de acordo com a idade de santo, ou seja, de baixo para cima. Quando da necessidade dos ritos de sacrifícios a serem realizados sobre os Ìgbá Òrìṣà esses objetos sagrados são retirados do compartimento e sustentados em outros apoios, muitas vezes diretamente no chão forrado com esteiras, aglomerado de folhas ou simplesmente em um pedaço de tecido.

Em meu entendimento, o pèpéle tem como definição e conceito de “altar e sacrifício” e dos quais são termos mais ou menos correlatos. A menção de um imediatamente sugere o outro. Consequentemente, a palavra “Altar” assumiu um significado comum de um lugar onde o sacrifício é oferecido. O Caudas Aulete, Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa, define a referida palavra, como sendo “mesa destinada aos sacrifícios em qualquer religião”. A Grande Enciclopédia Delta Larousse define a mesma palavra como “mesa de pedra destinada aos holocaustos do Templo de Jerusalém”.

Somente em nível de informação, a palavra hebraica mizbéahh (altar) deriva do verbo radical zaváhh (abater; sacrificar) , abatedouro ou a um lugar de sacrifícios. (Gên 8:20; 12:21; 16:2) . A palavra grega thysiastérion (altar) deriva do verbo thýo, que também significa “abater; sacrificar”. Tanto no hebraico como no grego, o significado de altar é sacrificar. No Latim a origem é altus, e poderemos compará-lo ao acima descrito sobre o pèpéle, ou seja, geralmente estão numa posição em evidencia, um pouco acima do nível do chão. Não trata-se apenas um lugar alto, mas um lugar de adoração e sacrifício; um lugar de vida e morte, pois a vida do animal a ser sacrificado justifica a vida daquele que o ofereceu.

Em resumo, o pèpéle é um altar, que deverá ser o ponto de ligação com nossas Divindades. O altar é o Microcosmo (uma sintética imagem do Universo), a posição espiritual onde nossas forças denominadas de Àṣẹ, serão renovadas para com os nossos Òrìṣà. Sob o ponto de vista religioso, o pèpéle representa lugar de oferendas e sacrifícios. Diante desse “altar + divindade” devemos tomar nossas decisões e fazer nossas escolhas. O altar é uma posição espiritual, onde depois de ouvirmos a “voz do oráculo”, iremos oferecer e sacrificar para restabelecer nosso equilíbrio individual ou coletivo, ou seja, manter o equilíbrio de nosso Ẹ̀gbẹ́ com o Ọ̀run. Pèpéle são marcos importantes e através deles zelamos por nossas vidas, seja espiritual, emocional ou naturalmente.

Um forte abraço a todos


Baba Guido Olo Ajagùnà

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

CANDOMBLÉ DE PORTA FECHADA

Porque meu Terreiro de Candomblé é de Porta Fechada?

Simplesmente, por que a maior parte dos adeptos de nossa religião não tem educação alguma; Simples assim!

Quando me refiro ao vocábulo “educação”, não é somente “educação de santo” o tal do “humbe” e sim “educação de berço” mesmo. Candomblé em minha Casa de Santo, são para os meus filhos, seguidores e amigos, que compartilhem da mesma filosofia que a minha.
Em minha humilde concepção, “porta aberta” é sinônimo de: desrespeito a sua bandeira; desfile de roupas, tecidos, apetrechos e calçados; curiosos maliciosos que querem apenas saber sobre os ritos e costumes da casa; desinteressados em se beneficiar com o Àṣẹ Òrìṣà que ali se faz presente, há não ser com um único intuito, o de criticar suas vestes e danças; entre tanto outros. Por isso decide adotar o seguinte critério: Não quero todo mundo tocando os meus sagrados tambores, não quero todo mundo cantando, não quero todo mundo dançando e muito menos todo mundo se manifestando. Mas saibam que aqueles que o fizerem, realmente são amigos do Àṣẹ Ẹ̀gbẹ́.
Não tenho absolutamente nada do que esconder do povo de santo, nem devo satisfação a seu ninguém, apenas não tenho a intenção alguma de me auto promover, ficar fazendo propaganda de minha pessoa religiosa e muito menos de minha casa de santo; realizar exibicionismos com o intuito de mostrar as pessoas, aquilo que eu sei, faço ou deixo de fazer. Quem realmente me conhece, sabe perfeitamente que meu Registro de Consulta, somente é realizado quando o consulente é indicado por alguém, assim como a iniciação e determinadas obrigações do culto. Uma das regras fundamentais do Terreiro da Casa Grande é que o “visitante” esteja na companhia de um dos membros do Ẹ̀gbẹ́.
Essa minha atitude, não tem como base fundamentada sas Grandes Filosofias como a Ordem dos Templários, Gnose, Rosa Cruz e até mesmo de uma Sagrada Mesquita, pois já compartilhava o pensamento de um “candomblé de culto reservado” muito tempo antes de ter o devido conhecimento das regras e normas dos referidos Templos acima mencionados.
Há quem diga que a “porta deva ser fechada” aos ritos internos da casa, pois o salão é apenas “uma festa profana”, “teatro para inglês ver”, “folclore” ou mesmo “brincadeira para se alegrar”. Então que as portas de minha casa se mantenham fechadas e meu candomblé no reservado, não compartilho do mesmo pensamento que “eles”, pois em meu entendimento, nesse espaço também se realiza o sagrado.


Baba Guido Olo Ajagùnà.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Orí & Bọrí – Cada cabeça uma Sentença, cada Cabeça uma Oferenda.


Considero Orí como um Ser Divino, o Ser Consciente, o Ser Protetor Individual de cada um dos habitantes desse mundo. Cada qual que tenha sua cabeça física individual Orí Òde, terá a sua cabeça espiritual também individual Orí Inú. Assim sendo, considero que cada Orí deva receber um tipo de oferenda e sacrifício que lhe seja propicio e favorável para aquele momento. De certo que poderemos encontrar mais de um Orí que desejam ser ofertados com as mesmas comidas, os mesmos animais e até mesmo as bebidas. O que não se deve ocorrer no Culto à Orí, é um “cardápio específico”, do tipo que vemos descritos em apostilas e cadernos, que mais se assemelham a “receitas gastronômicas”.
Durante a minha jornada religiosa, já realizei os mais diversos tipos de Bọrí, alguns semelhantes outros diferentes, mas dificilmente idênticos entre si. Durante o Registro de Consulta e a Prescrição Oracular determinar que seja realizado uma oferenda ao Orí do consulente, deverá ser verificado através do próprio oráculo, a variedade de elementos propiciatórios para aquele subterfúgio.
Existem determinados Orí, que apenas “desejam” um simples oferecimento de obì e água fresca; outros, apenas o acompanhamento de comidas secas dos mais variados tipos; enquanto alguns, uma complementação mais elaborada que exige o sacrifícios de animais das mais variadas espécies. Não podemos esquecer que apenas uma “gota de sangue” derramado na cabeça de um determinado indivíduo, pode trazer consequências devastadoras e até mesmo irremediáveis, se o Orí desse indivíduo não estiver preparado para receber esse tipo de oferenda.
Tive a oportunidade de presenciar Ritos de Bọrí onde estavam presentes entre duas e mais de dez pessoas; todas as “mesas” eram idênticas, inclusive frutas, doces e flores, não se observava absolutamente nada de diferente entre uma e outra oferenda. Seria um fenômeno extraordinário da reunião do “Banquete dos Orí Gêmeos”? Obviamente que não, pois mesmo um casal de gêmeos legítimos embora seu Orí Òde assemelhem na fisionomia, cada Orí Inú terá a sua individualidade, particularidade e características próprias.

Baba Guido Olo Ajagùnà


sábado, 12 de setembro de 2015

PANÃN – Um Rito de Transição em Vias de Extinção.

Meu empenho nesse new post é de melhor esclarecer e debater o que já se julga saber por ser de domínio mais ou menos público, entre o povo de santo, sobre uma das cerimônias que precedem os “Ritos de Iniciação e Consagração de um Neófito”, preservando na esfera do silêncio os fundamentos do Panãn.

Trata-se de uma cerimonia comunitária de carácter fundamentalmente religioso, organizado e dirigido pelo Corpo Sacerdotal do Terreiro, e que marca a transição de um indivíduo de um status institucionalizado para outro, ou seja, a reintegração do recém iniciado à sociedade da qual faz parte integrante. Em uma colocação mui particular, o denomino de "Voltar ao estado de consciência e à vida normal".

Não posso deixar de mencionar que, normalmente, os ritos de transição eram praticados em sociedades tradicionais, organizadas em classes ou grupos etários. Nesses "ritos de passagem", praticados em festas e em cerimônias simbólicas, os indivíduos eram retirados da sua situação anterior, considerada menor, para, através de uma prova real ou simbólica, "nascerem" para um novo status, considerado superior.

Nesta cerimônia, são realizadas as “quebras dos interditos” da ìyáwòrìṣà, seguindo da sua reinserção nas tarefas cotidiana do dia a dia. “reaprendizagem das atividades quotidianas”, além de “cozinhar, lavar roupa, usar o pilão, limpar o peixe, fazer compras na feira, cuidar de sua toilette, simular o ato sexual, o parto, ninar uma boneca, passear pela cidade ao braço do marido, escovar as roupas deste ao voltar para casa, fumar, ouvir rádio, assistir televisão e até mesmo reaprender a sua profissão.

Uma de suas etapas consiste em se manifestar a representação de um antigo Mercado de Escravos, onde os ìyáwòrìṣà são apresentados por seus atributos “físicos e psíquicos”, dando inicio a um grande leilão das “peças humanas” como acontecia no período da escravidão, apesar do clima ser ameno e repleto de uma conotação cordial e alegre.

Há quem diga que essa cerimônia não passa de um “pequeno espetáculo” de uma “brincadeira de iaô”, que não tem fundamento algum dentro da liturgia afro brasileira.


Baba Guido Olo Ajagùnà.