terça-feira, 7 de julho de 2015

O KÈLÈ E O RECÉM INICIADO




O KÈLÈ E O RECÉM INICIADO




Para um melhor entendimento, julga-se necessário saber a etimologia da palavra Kèlè. O termo de origem Iorubá, idioma falado na Nigéria, designa todos os fios de contas vermelho e branco, usados ao redor do pescoço dos recém iniciados e consagrados à Sàngó – A Divindade dos Trovões.
A principio, nos parece estranho o fato acima descrito, mas não podemos nos esquecer e sim lembrarmos, que a Religião dos Iorubás, foi reestruturada, reorganizada e recriada nas bases fundamentadas do Culto de Sàngó. Somente há nível de informação, a palavra Osu – aglomerado de substância mágico religiosa, pertencia única e exclusivamente ao Culto do Deus do Trovão, e este é usado na iniciação de todas as divindades trazidas do outro lado do Atlântico.
Limitando-se em tal assunto, e voltando ao Kèlè, esse tem os mais variados estilos em relação aos tipos de contas utilizadas, os números de gomos e fios. O Kèlè vária de Linhagem para Linhagem, ou seja, de Terreiro para Terreiro, podendo ser confeccionado de um único fio de firmas; três, sete, quatorze e 21 fios de contas com gomos e firmas ou simplesmente um fio todo de búzios.
Cada Terreiro de Candomblé, dá o seu parecer em particular do significado próprio do Kèlè, do qual confesso que são inúmeros; Muito tem se discutido a verdadeira função do Kèlè, alguns cheios de mistérios, enquanto outros cheios de fantasias. Citaremos como exemplo, aquilo que se encontra no Wikipédia a base de pesquisa de muitos adeptos de nossa religião.
[O Kelê é uma aliança que tem a finalidade de unir o sagrado com o iniciado, num simbolismo de casamento perfeito com o seu orixá, usando restritamente no pescoço, na iniciação, obrigação de três, sete, quatorze e vinte e um anos de feitura] [Depois de um período que pode variar de 12, 14, 16, 21 e até mesmo três meses da obrigação ritualística, a "joia" do orixá como também é chamada, é determinado pelo orixa, através do merindilogun a ser colocada no assentamento sagrado "Igba orixa", podendo permanecer até a ultima obrigação do iniciado chamada de axexê, quando este objeto tão sagrado e místico é desfeito] do qual cita apenas uma referência, o livro Awô, O mistério dos Orixás. Editora Pallas, escrito pela francesa Giselle Cossard, conhecida entre o povo de santo pelo nome de Omindarewá.
Tenho que descordar de vários pontos, pois em meu conhecimento e entendimento, a “aliança que une o iniciado ao sagrado”, são os ritos da iniciação e não um “emaranhado de fios presos por firmas”. Além do mais, se assim houvesse a necessidade de nomear a representação dessa “suposta aliança” seria o Osu, do qual sua simbologia está acima da figura do Kèlè.
Nos Terreiros Tradicionais de Salvador, o Kèlè não pertence ao noviço e muito menos ao Òrìsà Tutelar, ele é uma “Propriedade do Axé”, do qual o próximo recluso, terá a honra de usá-lo. Não podemos interpretar esse costume e tradição remota de forma pejorativa, quando na realidade ele seja um objeto sagrado de uso comunitário e não somente individual.
Esse adorno sagrado, assim como todos aqueles apetrechos usados no corpo do ìyáwò são de caráter sagrado, o Kèlè antes de ser usado pelo futuro noviço é cuidadosamente desmanchado, suas contas são enfiadas novamente em cordão de algodão virgem e lavadas ritualisticamente. O cordão de algodão retirado do interior das contas, fragilizado pelo tempo e uso, impregnados de substâncias sagradas e fluidos corporais daquele que o usou; é cuidadosamente identificado e guardado. Enquanto em outras ramas, simplesmente o despacham.
Em uma colocação muito particular, em meu Terreiro se faz uso do Kèlè apenas duas vezes: quando da “iniciação e consagração” e quando se completa o “ciclo iniciático”, ou seja no “sétimo ano”. Importante ressaltar, que a mesma forma ocorre na maior parte dos Terreiros Tradicionais da Bahia.
No principio do Candomblé, o Kèlè servia principalmente para identificar o “santo da noviça”, já que a reclusão dos futuros iniciados chegavam entorno de vinte pessoas, de várias divindades; e de imediato seria muito difícil memorizar o Òrìsà de cada uma das noviças, fato esse que não poderia haver qualquer tipo de confusão. O Kèlè permanecia preso ao pescoço da ìyáwò durante todo o período do “preceito religioso”, do qual durava de três meses à um ano. Quando fosse permitido a ìyáwò atravessar a porteira da casa de candomblé, ela usava seu pano da costa de maneira especial, de modo que esse cobria o seu Kèlè, pois não interessava ao povo de santo do lado de fora, a qual Òrìsà lhe pertencia.
Se por ventura ou força maior a ìyáwò fosse obrigada a passar o resguardo sem o uso do Kèlè, esse era retirado de seu pescoço e colocado encima do assentamento de seu Òrìsà e a mesma continuaria cumprindo rigorosamente seus preceitos, carregando ou não aquele que um dia lhe serviu para lembrar as pessoas de qual santo ela pertencia.

Baba Guido Olo Ajaguna.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

ODÉ O GRANDE CAÇADOR DE BORBOLETAS. DESMISTIFICANDO O FALSO MITO!

Sabemos que a Arte da Caça entre os povos africanos, predominavam dois motivos de grande profundida: um para fornecer alimentos ao povos e outro para provar a sua coragem, bravura e nos ritos de passagem da puberdade masculina. Entretanto na literatura dos Povos Tradicionais da África, não existe nada em relação à Entomologia – coleção de qualquer tipo de inseto e a Lepidóptera, especificamente para a coleção de borboletas. O hobby de colecionar insetos em geral, especialmente lepidópteros, era muito popular no século XIX e ao logo do tempo vem perdendo espaço devido a aceleração da vida moderna onde não se tem tempo para quase nada, além da deterioração do próprio ambiente, que vem afastando das cidades a maioria das espécies.
Obviamente que esse suposto Ode Lábálábá – Caçador de Borboletas, não poderia caçá-las com suas tradicionais ferramentas de caça, sobretudo com seu arco e flecha, senão com a tradicional “puçá ou rede entomológica” utilizada para capturar insetos em pleno voo, do qual é confeccionado de tecido fino transparente, o que facilita enxergar o inseto capturado, ou seja, a borboleta. Tal artefato não existia na África, até ser introduzido pelos biólogos ingleses no Século XIX, com a finalidade de coletar espécies à serem catalogadas cientificamente. 
Se já não bastassem as 36 (trinta e seis) qualidades de Ode criadas por não sei quem, ainda não sabemos ao certo de quem foi essa “invenção absurda” do The Butterfly Hunter ou de onde surgiu essa “imaginação tão fértil” que aqui se encaixa perfeitamente a palavra, da qual se interpreta de modo figurado, daquilo que é imaginativo ou criativo.
Se realmente esse Caçador de Borboletas existe dentro de nossa estimada religião, porque nunca vimos ele bailando no salão, carregando o seu tradicional puçá? Onde estão inseridos seus mitos e seus ritos? Qual seria a finalidade de um Grande Caçador Divinizado caçar borboletas? Seria apenas um hobby de uma Divindade? Será que existiu povos na África que se alimentavam de comidas exóticas incluindo borboletas? Na minha opinião bem fundamentada, a resposta é simples: Em nenhum lugar ou em lugar algum, existe esse Ode,  pois esse personagem é um dos Contos da Carochinha e só existe no imaginário daquele que o inventou e no imaginário daquele que acreditou no seu conto.
Baba Guido Olo Ajaguna.

domingo, 5 de julho de 2015

“SOU UM SER BRANCO DE ALMA NEGRA"


“Sou um Ser Branco de Alma Negra” é assim que me sinto... Muito mais Negro que a Alma do próprio Negro... Negro esse que não faz nada, absolutamente nada pela religião e a cultura de seus antepassados... Nunca desejei ser Negro... Não invejo a etnia do Negro... Acredito que “Desejar sermos a pessoa que gostaríamos de ser, é menosprezar a pessoa que somos”... Talvez, o Criador tivesse me concebido Negro eu não pertenceria a essa religião de devoção que tanto amo e adoro de coração.


Baba Guido Olo Ajaguna

quinta-feira, 2 de julho de 2015

AS INDUMENTÁRIAS A CAMINHO DO DESAPARECIMENTO



De algum tempo pra cá, tenho observado que a cada ano que passa, podemos perfeitamente observar a ausência de indumentárias ritualísticas ou seja, o conjunto do vestuário utilizado em determinado Òrìsà.

As “indumentárias de cabeça” como o capacete, a coroa, o chapéu, o capuz e a diadema, foram substituídos por imensos turbantes e torço em formas de cone com imensos bicos, ou simplesmente uma “rodilha” amarrada ao redor da cabeça.

Assim também ocorre com as “indumentárias de mão” tais como, a espada, o facão, a adaga, o machado, o arco e flecha, as lanças, entre uma infinidade de ferramentas especificas (que aqui não cabe descrevê-las), são substituídas por folhas de dendezeiro desfiadas ou galhos de nativo. O que mais me espanta nessa suposta “substituição”, está no fato do uso indiscriminado do Irúkèrè – Simbolo de Sacerdotes e Reis Iorubás, sendo utilizado por qualquer Òrìsà.

As “indumentárias de corpo”, não estão livres de seu desaparecimento. Não vemos mais as capangas, as bolsas a tira colo e as famosas “pencas” com os emblemas característicos do Òrisà. Isso sem mencionar certas indumentárias que se encontram ocultas nas vestes do Òrìsà.

O vestuário do Òrìsà, há muito tempo que já perdeu o uso da estola e do avental, denominado entre o povo antigo de Bànté. Assim como se perdeu o uso correto da “camisa de crioula”, usada sem critério e de forma incorreta nos mais diversos Òrìsà.

O intuito desse “post” é questionar a indumentária dos Òrìsà “Anfitrião da Festa e seus Convidados”, que deveriam estar devidamente vestidos a caráter e não estão. O que mais me entristece nisso tudo, é ver um Òrìsà recusar-se em vestir seus trajes característicos, em prol do “moderno vestuário” do “homem moderno” que deseja erradicar “figurinos ultrapassados”.



Baba Guido Olo Ajaguna.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

ODÒ ÒSUN – O RIO OXUM




ODÒ ÒSUN – O RIO OXUM


Òsun é a divindade do rio do mesmo nome que corre no sudoeste da Nigéria. Originário de um numero afluentes de fontes, denominadas de Omi Òsun – Águas de Oxum, emanadas das sagradas Òkè Olosunta – Colinas de Olosunta em Ikere – Ekiti State. Desemboca no lago Lekki Lagoon, uma imensa lagoa ligada a um canal, com pântanos de água cristalinas e uma parte cercada por praias, em Lagos – Nigéria.

ÒKÈ OLOSUNTA


                 OMI ÒSUN





Da nascente à desembocadura, esse sagrado rio percorre um extenso território, e quase que em toda a sua extensão Ìyá mi Òsun é reverenciada, não só por seu nome próprio, mas sim por seus títulos e epítetos, dos quais denomino os “Caminhos de Oxum”.


 MAPA DO RIO ÒSUN







Alguns dizem que o rio Òsun não é navegável, outros afirmam que os habitantes locais tem uma superstição que permite aos homens atravessá-los, mas não subi-lo ou descê-lo. Existe um tipo de milho que é considerado tabu para Òsun e nunca poderia ser levado a beira de seu rio, do contrário as chuvas deixariam de cair.

ODO ÒSUN





Efon – Ekiti State …nessa cidade ela recebe o título de Olo'kiti Efon – Senhora do Povo de Efon.
Ijebu – Ekiti State …considerada a mãe do Rei Awujalé. Os mitos locais revelam que Òsun era uma mulher de grande valor, gostava muito da água e nela vivia boa parte do tempo. Nela escondia parte de seus tesouros. Considerada excelente nadadora por seus adoradores. O rio onde ela vivia ainda é adorado por aqueles que moram as margens do rio ...os crocodilos que exibem certas marcas são sagrados e considerados seus mensageiros. Em uma época muito distante, em tempos de necessidade eram feitos sacrifícios humanos as “águas do rio”, jogando as vitimas voluntárias aos crocodilos. ...à reverenciam como Yèyé mi – Minha Mãezinha Queridinha. ...foi a primeira fabricante de utensílios de bronze dos Iorubás e do mundo. Seus adoradores usam argolas de bronze em torno do pescoço, braços e pulsos. Essas argolas são denominadas de Idé ...uma de suas principais representações, consiste em um pequeno pote de barro que contém seixos de rio denominados de Òkúta Òsun e a água do próprio rio Òsun, que deve ser mantido sempre cheio e nunca secar.
Osogbo – Osun State … Não existe outro local em território Iorubá que preste mais homenagens à Òsun que nesta cidade. Nela ocorre o maior Festival de Òsun conhecido turisticamente por todo o mundo. … o Odún Òsun – Festa Anual das oferendas Òsun realizada em Osogbo, é uma reatualização do pacto que o primeiro rei local chamado de Laro, contraiu com o sagrado rio. … eis a narrativa do mito: Laro, após prolongadas atribulações, procurando um lugar favorável onde pudesse instalar-se com seu povo, chegou perto do rio Òsun, onde a água corria permanentemente. Alguns dias mais tarde uma de suas filhas desapareceu nas águas quando se banhava no rio e passando algum tempo, das águas saiu, esplendidamente vestida. Declarou a seu pai que fora admiravelmente recebida e muito bem tratada pela divindade que ali morava. Laro foi fazer oferendas de agradecimento ao rio. Muitos peixes, mensageiros da divindade, em sinal de aceitação, vieram comer o que Laro ogou na água. Um peixe de grande tamanho veio nadar perto do lugar onde o rei se encontrava e cuspiu água. Laro recolheu essa água em uma cabaça e bebeu-a, celebrando assim um pacto de aliança com o rio. Em seguida estendeu as mãos e o grande peixe saltou nelas. A partir desse momento ele assumiu o título de Ataoja, contração da frase iorubá “A lewo gba eja – aquele que estende as mãos e pega o peixe”. Então ele declara “Òsun gbo – Òsun encontra-se em estado de maturidade”, isso é suas águas sempre serão abundantes. Daí originou-se o nome da cidade Osogbo. ...Nessa cidade de Òsun, é representada por uma estatueta de madeira esculpida, que tem orelhas grandes, para melhor ouvir os pedidos, grandes olhos para tudo ver e carrega uma espada para defender seu povo. Sempre acompanhada de uma outra estatueta que representa Alege, uma heroína que salvou Osogbo quando o povo Fulani tentaram conquistar a cidade, em um ataque surpresa.
ODO ÒSUN OSOGBO






Ede – Osun State, ao norte surge a direita do rio, um afluente conhecido pelo nome de Odo Erinlé e mais a esquerda um outro afluente conhecido por Odo Otin.

ODO OTIN





ODO ERINLE






Ogbomoso – Oyo State, o rio encontra-se com o Odo Oba em uma série de corredeiras, de águas agitadas e turbulentas. Os dois rios descansam pacificamente no extremo norte do reservatório Asejire e depois seguem seu percurso isoladamente.

ODO OBA








ODO ÒSUN
ati
ODO OBA






Lekki Lagoon – Lagos State










Baba Guido Olo Ajaguna






domingo, 28 de junho de 2015

O Exterior sempre será o complemento do Interior




O Exterior sempre será o complemento do Interior



O título da postagem pode ser estranho a primeira vista, mas quando me refiro ao “exterior”, estou me referindo ao salão, a sala ou ao barracão de um Terreiro de Candomblé, onde ocorrem as cerimonias de caráter público. O “interior” seria os “quartos de santo” onde as cerimonias são de caráter privado.

Em minha concepção muito particular, o salão de uma Casa de Candomblé, tem tanta importância quanto o interior da casa. Não pode ser tratado apenas como um local de “folclore” e um local que apenas serve de palco para se apresentar um espetáculo como muitos andam dizendo.

Considero essa “ante sala” sagrada, pois ali, mais praticamente no centro, se encontra “plantado ou acomodado” o Axé do Terreiro; os quatros cantos do salão estão “preparados”; no telhado, mais precisamente na “tesoura” encontra-se a cumeeira da casa, morada essa de um Orixá específico; sem mencionar que a porta de folha dupla do salão, também foi “preparada” onde serve de moradia para outras Entidades e por fim, encontram-se nesse local um terno de atabaques consagrados e sacramentados.

Se quisermos ir mais a fundo, no salão é realizado o tradicional xirê, onde irá abrir o portal entre os dois mundo para que ali as Divindades se fazem presentes; depois de um longo período de iniciação, o noviço se apresentará em público e revelará aos presentes o seu novo nome; as pessoas que completarem o seu ciclo de iniciação, ali será apresentado; o Ipeté de Oxum, o Pilão de Oxoguiã, o Ajere de Xangô, o Akará de Oyá e tantas outras cerimonias que serão apresentadas no salão. Sem mencionar que no salão é realizado um dos mais importantes ritos fúnebres de nossa religião.

Então eu pergunto: Onde se encontra o fato do salão não ser importante? Se não tem importância alguma, poderia alugar esse espaço para festas de aniversários ou casamentos? Poderia promover festas com os mais variados estilos de musicas e danças?

Tratar com desdem o salão é tratar com desdem aquilo que foi realizado dentro do sagrado, pois um complementa o outro.


Baba Guido Olo Ajaguna


Um breve resumo sobre O PANO DA COSTA





Um breve resumo sobre O PANO DA COSTA






O pano da costa era parte integrante e exclusivo do vestuário feminino das baianas características das ruas de Salvador no Século XIX. O termo “era” se faz necessário, pelo simples motivo de na atualidade o “pano da costa” estar sendo utilizado por pessoas do sexo masculino. Seu nome deriva de sua origem remota a Costa do Marfim, na África ou por ser usado nas costas e ombros. Sua principal função, seria a de distinguir o posicionamento feminino nas comunidades afro-brasileiras de acordo com o seu uso, ou seja, quando usado no ombro esquerdo identifica as Ìyálòrìsà (Suma Sacerdotisa) e Oloyè (Corpo Sacerdotal) ou nas costas enrolados na altura do peito, quando no status de ègbón (mais velhas) e ìyáwò (noviças). Outro função do pano da costa é o de proteger os seios, o umbigo e os órgãos reprodutores, aquilo que de mais sagrado possui a mulher. Ao mencionar “parte integrante do vestuário feminino”, me refiro ao fato do pano da costa fazer parte da “roupa da conta” ou “roupa de ração” popularmente conhecido; seria uma espécie de “uniforme” dentro do Terreiro de Candomblé”. Geralmente retangular, o pano da costa é bicolor, estampado, listrado ou xadrez, do qual se destaca com a brancura da “camisa de crioula” ou “camisu”. Em muitos Terreiros Tradicionais da Bahia o uso do pano da costa, é de uso exclusivo das baianas e não fazem parte da vestimenta dos mais diversos Orixás Femininos, ou seja, o pano da costa tradicional é substituído pelo Bànté – um tipo de avental.


Baba Guido Olo Ajaguna

Breve resumo sobre o Pano de Cabeça das Baianas





Breve resumo sobre o Pano de Cabeça das Baianas


Òjá (ó-já), termo averbado nos Dicionários Yorubá – Português, como: subs. faixa, cinta, tira ou turbante, e popularmente conhecido entre o povo de santo pelo nome de “torço” tem sua característica identidade. Durante o período da escravidão, era comum perceber perfeitamente as diferenças entre as diversas etnias africanas trazidas ao Brasil através dos detalhes do torço. Aqui cito apenas dois exemplos: Entre as mulheres da etnia iorubá (nagô) , o òjá era amarrado com várias voltas ao redor da cabeça. Já as negras da etnia fon (jeje) usavam um lenço sobre os cabelos, dobrando o tecido em formato triangular, com a ponta para frente, com seu “bico” para baixo quando pertenciam à Vodun masculino e para cima quando feminino. Cobrir a cabeça era tão importante para o povo antigo que, de acordo com muitos relatos, era tradição, as mulheres saírem de suas casas com a cabeça coberta por seus panos de cabeça, assim como os homens com seus chapéis. O torço das baianas, mais do que sua identidade étnica, tinha o intuito de manter a cabeça protegida e de ordem religiosa, ou seja, através do òjá era identificado a Ìyálòrìsà (Suma Sacerdotisa) as ègbón (as mais velhas) e as ìyáwò (noviças). De suma importância mencionar que naquela época os homens que usavam “turbantes” pertenciam eram “muçulmanos” ou “vendedores ambulantes” dos quais carregavam em suas cabeças os seus cestos e tabuleiros. A origem do turbante é quase que totalmente desconhecida; sabemos apenas que era usado no oriente muito antes do surgimento do Islamismo.

Baba Guido Olo Ajaguna



sábado, 27 de junho de 2015

Reseña de "O Candomblé da Barroquinha

Ferretti, Sergio F.
Reseña de
"O Candomblé da Barroquinha:
processo de constituição do primeiro terreiro baiano de ketu"
de SILVEIRA, Renato da
Afro-Ásia, 41, 2010, pp. 267-274
Universidade Federal da Bahia
Bahía, Brasil


CANDOMBLÉ DA BAHIA


SILVEIRA,Renato da
O Candomblé da Barroquinha:
processo de constituição do primeiro terreiro baiano de ketu. Salvador, Maianga, 2006, 648p.


O Candomblé da Bahia é um tema que vem sendo debatido, há tempos, por especialistas ilustres e sobre o qual muitos consideram possuir o conhecimento mais correto. É, de fato, assunto apaixonante e pode-se fazer um paralelo com o futebol no Brasil, sobre o qual todo mundo se considera expert, com direito à opinião mais avalizada. Como estudioso das religiões afro brasileiras, não posso deixar de ter interesse pelo Candomblé na sua terra de origem. Sei que se trata de um campo de conhecimento delicado pela complexidade específica do tema e em função da competência de autoridades famosas, tanto no ambiente acadêmico, quanto junto ao povo do santo. Segundo a antiga aspiração de mãe Aninha, famosa fundadora do Ilê Axé Opô Afonjá, felizmente, hoje, e não só na Bahia, muitas pessoas do povo de santo possuem um anel de doutor. Assim, segredos da história do Candomblé estão sendo desvendados, e o tema vai-se tornando mais bem conhecido, especialmente com o refinamento da pesquisa histórica nas últimas décadas. O livro de Renato da Silveira é uma investigação histórica de peso. O autor informa que demorou mais de trinta anos estudando e escrevendo o trabalho, a demonstrar que realizou a pesquisa com minúcia, dedicação e amor. É fácil constatar, por sua familiaridade e trânsito no campo religioso afro-brasileiro, que ele é mais do que um simples pesquisador participante. O livro contém dezesseis capítulos de dimensões diferentes e 68 páginas de notas com informações específicas de grande interesse, além de muitas ilustrações. Lamentamos que as notas não estejam colocadas ao pé de página, o que facilitaria o trabalho de consulta. No item sobre a iconografia, comenta alterações que julgou conveniente proceder em alguns materiais iconográficos, com o objetivo de valorizar os retratados e retirar vestí- gios de imagens estereotipadas e preconceituosas. Merece elogio a sinceridade do esclarecimento, baseada na experiência do autor como artista plástico e designer gráfico. Diz que algumas imagens receberam restaura- ções limitadas para disfarçar danos do tempo, outras receberam retoques para corrigir limitações e imperfeições. Algumas foram manipuladas ou remanejadas com objetivos diversos, sobretudo em relação à expressividade das figuras e para evitar imagens estereotipadas, deliberadamente depreciativas como se explica na página 34. O livro discorre sobre muitos temas interessantes, relacionados com o trabalho escravo, e começa refletindo sobre o colonialismo e a escravidão desde a antiguidade clássica, durante a Idade Média e, nos tempos modernos, até o século XIX. Trata da expansão do Cristianismo, do culto aos santos e das irmandades negras em Portugal e no Brasil, afirmando que, na Bahia, havia cerca de uma centena de irmandades e confrarias no século XIX. Diz que, em Salvador, Maria Inês Cortes relacionou 31 irmandades de homens de cor no XIX, depois foram encontradas outras cinco. É oportuno compararmos esses dados com os do Maranhão na mesma época, em que Emanuela Ribeiro localizou um total de quarenta irmandades religiosas no interior e 25 em São Luís.1 Informa, ainda, que, na Bahia, comerciantes negros libertos que prosperaram tornaram-se pessoas importantes, ocupando cargos de juízes, escrivães, tesoureiros ou procuradores das irmandades negras. A nosso ver, e sem a intenção de desmerecer a importância e o valor do longo e exaustivo trabalho de pesquisa realizado por Renato da Silveira, consideramos que, se o autor fosse mais conciso e menos abrangente, o texto poderia tornar-se mais agradável de ser lido. Poderia, ainda, ter sido dividido em três partes ou desdobrado em dois ou três livros: um sobre a escravidão do mundo antigo até inícios dos tempos modernos, outro sobre a escravidão no Brasil e um terceiro sobre o candomblé da Barroquinha. Tal proposta, a nosso ver, tornaria a leitura muito mais fácil. A igreja da Barroquinha é mencionada pela primeira vez na página 126, e a irmandade da Barroquinha só aparece a partir da página 253. Apenas no capítulo 8, nas páginas 373-90, é que o autor vai discutir a data de fundação, o local e o nome do Candomblé da Barroquinha. Consideramos que o livro também poderia ter sido iniciado na página 250, quando o autor comenta o desempenho, alternadamente moderado ou agressivo, das autoridades no contexto de fundação do Candomblé da Barroquinha. Se tivesse sido planejado dessa forma, ele teria redigido um texto com cerca de 400 páginas, precedido por outro, com as 250 anteriores, em que mostra todos os fatos interessantes que estão relatados. Mas essas são opini- ões de um observador externo, que implicam em decisões alheias ao autor. De todo modo, ficam indicadas como sugestões para uma possível segunda edição. O Candomblé da Barroquinha teria sido o primeiro terreiro baiano de ketu, como diz o subtítulo? Ou teria sido, de fato, o primeiro candomblé do Brasil? Alguns consideram que, em Cachoeira, haveria candomblés mais antigos. Segundo soubemos,2 o Terreiro do Pinho, em Maragojipe, de nação jeje, dedicado a Jogorobossu, seria o mais antigo do Brasil e teria sido fundado na época das invasões holandesas! Provavelmente deve haver outras discordâncias sobre a antiguidade dos candomblés baianos, que compete à história esclarecer melhor. O livro é muito bem documentado, mas construído em cima de muitas suposições. De qualquer forma, ao término da leitura ficamos sabendo que o Candomblé da Barroquinha foi o antecessor do Ilê Axé Iyá Nassô Oká, o famoso Terreiro da Casa Branca, considerado o mais antigo Candomblé do Brasil. O texto inclui algumas belas reproduções com gravuras de divindades daomeanas do Le Petit Journal, que circulava na França em fins do século XIX, e muitas informações preciosas garimpadas em livros e em bibliotecas estrangeiras, na história oral e/ou com o apoio de linguistas africanos. Todo o livro, no início, no final e no meio dos capítulos, é ilustrado com belas vinhetas alusivas a símbolos dos orixás, que supomos serem do próprio autor, que enriquecem a apresentação gráfica. Uma crítica de detalhe sobre a frase final de cada capítulo, que termina sempre em “V”, talvez com a pretensão de efeito decorativo, que, a nosso ver, acaba por dificultar a leitura. Nossas observações críticas sobre detalhes não pretendem negar a importância e o fôlego da pesquisa de Renato da Silveira, mas, sim, destacar o aspecto ímpar desse trabalho, como contribuição fundamental para o conhecimento do Candomblé da Bahia. Na impossibilidade de comentar todo o texto, vamos resumir alguns aspectos que nos chamaram mais a aten- ção: o capítulo 3, com mais de 150 páginas, é o mais longo e no qual o autor analisa o Calundu do século XVIII como ancestral do Candomblé, e acrescenta informações sobre a política colonial em relação aos escravos, às irmandades e às lutas dos negros pela cidadania. Comenta que o controle da Polícia sobre o Candomblé durou até 1976, e que, só a partir daí, foi considerado uma religião como as demais. Lembramos que, em outras regiões, como no Maranhão, essa fiscalização só foi suspensa em 1988, no Centenário da Abolição. e que os preconceitos continuam atuantes em toda parte. Discute conceitos de sincretismo e antissincretismo, de adaptação e preservação, afirmando que muitos elementos dos preceitos africanos devem ter sido substituídos por similares brasileiros, mas considera que houve adaptações e preservação do fundamental. Ainda nesse capítulo, concorda com a opinião de Luiz Mott de que a Inquisição atuou com maior rigor sobre cristãos novos, sodomitas e bígamos, e menos contra praticantes de rituais pagãos. Diz que Mott encontrou denúncia de apenas uma feiticeira africana, Luiza Pinta, enviada para os cárceres em 1741, em Lisboa, e comenta que os folguedos praticados pelos negros eram mais da alçada dos bispos do que da Inquisição. Tratando da figura do feiticeiro, adivinho na área cultural angolana, apresenta críticas consistentes à antropologia das religiões afro-brasileiras, relativas à ideia da “pequena consistência das concepções míticas”, sobre as práticas fetichistas e o grau de civilização inferior, atribuído aos negros bantus, ou à ideia da adaptação dos inkices aos orixás, que teriam sido apropriados dos jejes e nagôs e seriam criações recentes. Afirma que erros de Edison Carneiro sobre esses temas influenciaram autores como Bastide, ao afirmar que os congos ou angolas copiaram os candomblés, mudando apenas os nomes das divindades. Lembrando que, de modo geral, a imagem do negro foi depreciada na arte ocidental, Renato Silveira comenta longamente algumas figuras reproduzidas no livro, como uma aquarela, Dança de Negros, de Zacharias Wagner, da época do domínio holandês, que Renê Ribeiro considera ser, talvez, o mais antigo documento gráfico de uma dan- ça religiosa. Ao analisar a aquarela do século XVIII, do padre italiano Giovanni Cavazzi, sobre o reino dos jagas no Congo, reproduzida na Figura 22, Silveira questiona o comentário desse autor a respeito da figura principal retratada, uma mulher com os olhos bem abertos para o céu. Nosso autor afirma que “absolutamente não podia estar em transe e menos ainda possuída por um ‘demônio’ ou ancestral qualquer” (p. 226). Diz que deve tratar-se de um rito de homenagem ou de vassalagem e não de uma dança de transe ou possessão, tendo em vista que a mulher estava com os olhos bem abertos. A esse respeito, consideramos importante destacar que, no Tambor de Mina do Maranhão, os voduns, orixás e caboclos ficam sempre com os olhos abertos. Creio que, no candomblé de caboclo e na umbanda, essas e outras entidades também baixam e são recebidas pelos devotos com olhos abertos. Parece-nos que, nesse aspecto, Renato da Silveira extrapolou para as religiões afro-brasileiras conclusões relativas a tradições do Candomblé da Bahia. Os onze capítulos seguintes são menores e tratam de temas específicos, igualmente interessantes, sobre os quais comentaremos rapidamente alguns tópicos. O quarto capítulo menciona a irmandade do Senhor Bom Jesus dos Martírios da Barroquinha dos nagôs, que teriam fundado o Candomblé estudado. Diz que o culto, inicialmente, funcionaria na casa de uma mãe de santo africana, nas imediações da Ladeira do Berquó e da Rua do Currriachito. Em várias páginas, o autor discute detalhes sobre o mapa da cidade (fig. 23, p. 276) e sobre as localizações prováveis para a casa que abrigou o culto inicial. Essas informações, porém, não ficam claras, quando comparadas com detalhes da figura 44 (p. 376-7) do capí- tulo 8, que faz a reconstituição do bairro da Barroquinha. Qual seria a localização provável do terreiro? Quais são as ruas da Lama e do Curriachito? Tais informações talvez sejam compreensíveis para os habitantes de Salvador, mas, para os de fora, ficam confusas. Também não está claramente indicada a autoria do desenho da figura 44, cuja alusão, na p. 600, informa que foi digitalizada e retocada por Silveira. De fato, são detalhes de revisão que escapam em um texto dessas dimensões. Referindo-se à continuidade da política cultural entre africanos e crioulos, o autor afirma que o Alaketo, a Casa Branca e o Gantois são os três mais antigos terreiros baianos de Ketu. Informa que os nagôs de Ketu nunca foram muito numerosos na Bahia, mas teriam sido majoritários na Barroquinha, destacando que essa importância não foi apenas demográfica. Mostra que, em fins do século XVIII, pessoas da linhagem real Aro, do reino de Ketu, chegaram à Bahia como escravos, inclusive duas irmãs gêmeas do Rei Akebiohu, então no poder. Supõe que tenham ido morar na Barroquinha, filiando-se à irmandade dos Martírios, entre nobres do reino de Ketu e malês importantes. O Capítulo 5 apresenta a situação dos jejes e nagôs na Costa da Mina e, em torno da metade do livro, o autor comenta a cumplicidade entre europeus e africanos, dizendo que os daomeanos aprenderam a comerciar com os ocidentais e a lucrar com a sua presença, quando o tráfico de escravos se tornou o melhor negócio da Costa e, talvez, do mundo. Diz que os damomeanos cercaram a capital de Ketu várias vezes, mostrando haver versões antigas que envolvem controvérsias, documentadas pela oralidade, sobre histórias dos reinos africanos da região. Considera que havia conflitos, porém um espírito de paz e tolerância comunitária caracterizou a vida cívica por vários séculos. Mas os reis do Daomé temiam cultos populares e rebeliões contra a monarquia. Afirma que homens importantes foram vendidos aos traficantes e, com isso, muitos sacerdotes do culto dos voduns foram degredados para o Brasil. No capítulo 8, discute a data de fundação, o local e o nome do Candomblé da Barroquinha, afirmando que não há mais como saber quando teria sido fundado, pois as tradições orais não indicam nada preciso. As datas da literatura antropológica resultam de cálculos nem sempre concordantes, embora haja convergência, entre fins do século XVIII e inícios do XIX, na história da Bahia e dos reinos africanos. Diz que também não há certeza quanto ao nome oficial. A data da fundação varia em torno de 42 anos, entre 1788 e 1830. No Capítulo 9, considera que Iyá Adetá, Iyá Akalá e Iyá Nasso, Bamboxê Abitikô e outros teriam sido os fundadores do Candomblé da Barroquinha, embora afirme que há controvérsia entre estudiosos. Iyá Adetá, sacerdotisa de linhagem real, que chegou como escrava por volta de 1789, depois alforriada, implantou o culto em sua casa, nos últimos anos do século XVIII. Levanta, entre outras, a hipótese de que teria sido sequestrada pelos daomeanos, vindo no mesmo navio com as meninas que posteriormente fundariam o Alaketu e, uma vez na Bahia, mantido contato permanente com elas, teria sido a primeira mãe de santo da Barroquinha. Constatamos também que Renato da Silveira discute no livro muitos assuntos paralelos sobre a situação do Candomblé na Bahia. A esse respeito, debate (p. 409) o significado do vocábulo Axipá, termo que considera ter sido divulgado na Bahia, após uma viagem inicial em busca de uma identidade perdida, realizada por Mestre Didi ao reino de Ketu, em 1967, quando ele se identificou como membro da família Axipá, da nobreza local – uma das sete principais famílias fundadoras do reino de Ketu. Lembra que Didi foi identificado como tal pelo rei Alaketo, então no poder, após recitar o irilé (brasão oral) de sua família baiana. Três anos depois, Didi foi aclamado na Universidade de Ibadan e no templo de Xangô em Oyó. O autor considera que o caráter apoteótico dessa história não tira sua autenticidade. Apoiado em historiadores africanistas, afirma que as linhagens fundadoras do reino de Ketu foram nove, mas quatro desapareceram sem deixar rastro, restando cinco: Alapini, Magbô, Aro, Mecha e Mefu. Declara ser provável que o título de axipá (não como chefe dos caçadores), que teve muitas funções, seja uma atribuição recente do reino de Ketu, estabelecida depois da destruição da capital pelos daomeanos em fins do século XIX. Lembra que a transmissão do nome da família na área cultural ioruba é feita pela linha paterna e não pela materna, como no caso de Didi, que a recebeu de mãe Senhora. O Capítulo 10 apresenta informações pouco conhecidas e nem sempre muito claras sobre as sociedades secretas Ogboni, Geledé e os cultos de Babá Egun e da Boa Morte. Afirma, com base em bibliografia africanista, que o moderno teatro iorubano tem raízes no culto Egungun. Diz que a Sociedade Egungun teve origem em Oyó, e a Sociedade Geledé, no reino de Ketu (p. 437). Comenta a existência de sociedades secretas africanas na Bahia e se refere (p. 450) a máscaras geledés, preservadas no Gantois, no Opô Afonjá, no Pilão de Prata e no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. Diz que a Irmandade de Bom Jesus dos Martírios era a fachada legal que abrigava o candomblé da Barroquinha e a associação política dos nagôs-iorubás, enquanto a devoção da Boa Morte abrigava a Sociedade Geledé ou sua direção era integrada pelas mesmas pessoas. Afirma que os estudos etnolinguísticos, iniciados por Vivaldo da Costa Lima e por Yeda Pessoa de Castro, demonstraram que muitos termos do vocabulário fongbé, a língua dos jeje, fazem parte do ritual utilizado nos candomblés ketus. São termos dessa língua esotérica, hungbe, a da divindade, usada pelos cultos da área fronteiriça fon-nagô. Informa que os jejes, quando chegaram, já encontraram a tradição angolana e congolesa mais antiga e dela absorveram fundamentos, iconografias e terminologias. Ao lado da influência jeje, a dos congos e dos angolanos parece ter sido maior do que a literatura antropológica tem admitido. O autor assevera que a tradição africana, em função dos grandes movimentos migratórios, aceita deuses imigrantes, acreditando na acumulação de forças místicas. Os capítulos 13, 14 e 15 transmitem informações valiosas sobre a queda do poderoso império de Oyó e sua luta contra a expansão islâmica. Silveira mostra que algumas mulheres tornaram-se poderosas auxiliares no tráfico como fornecedoras de armas e mercadorias, fazendo da guerra o principal meio de obter escravos para o mercado atlântico. A Iorubalândia foi redesenhada pelos estrategistas da nova capital, dividida nas tradicionais quatro áreas, segundo os pontos cardeais e as necessidades militares. O governador pretendia que Lagos tomasse o lugar de Ketu, como o quarto canto do país iorubá, uma vez que Ketu tinha ficado no lado francês. Os quatro cantos tradicionais foram: Egbá, Ketu, Jebu e Oyó, que assim deveriam permanecer segundo o alafin. Ketu sequer tinha mais exército. Isso explica a preeminência litúrgica adquirida por Ketu na Bahia e a aliança entre os partidários de Oxossi, divindade típica de Ketu, e Xangô na Barroquinha. Tradições orais dos candomblés baianos atribuem preeminência muito grande ao reino de Ketu como sendo sua origem privilegiada. É usual explicar tal fato pela concentração de escravos de Ketu em Salvador e no Recôncavo. Os ketus tiveram desempenho importante, mas outros grupos iorubanos bem mais numerosos também tiveram papel destacado. Afirma que, em 1981, Vivaldo da Costa Lima contestou Pierre Verger, argumentando que os nagôs foram trazidos como escravos de muitas outras nações iorubás, como Abeukutá, Oió, Ijexá, Ijebu Odé e Ibadan. Também contestou os supostos conhecimentos rituais mais profundos dos nagôs de Ketu, denunciando a predisposição valorizadora desse grupo por Verger. Lembra que Nina Rodrigues, conhecedor da comunidade africana em fins do século XIX, também estimou que os nagôs de Ketu não eram muito numerosos e que existiam outros subgrupos iorubás muito maiores. Ketu ficou relativamente preservada até a década de 1850, quando o tráfico para a Bahia foi encerrado. Escravos de todos os grupos iorubanos tinham ido para lá, com predominância dos oyós, ijexás, e egbás, diretamente envolvidos no conflito. Ketu tinha grande prestígio ritual entre os iorubas. Na época do desmantelamento do Impé- rio de Oyó, o reino de Ketu estava relativamente bem preservado e conservava as grandes tradições ancestrais. O alafin Atiba fez um pacto para a revalorização dos cultos tradicionais. O reordenamento do Candomblé da Barroquinha, a partir do final da década de 1830, pode ser considerado uma decorrência do reorganização política da Iorubalândia, após a queda de Oyó- Ilé; a presença na Bahia de altas autoridades vindas de Ketu, Ibadan e Nova Oyó pode ser considerada um aspecto da estratégia de reestruturação da sociedade tradicional iorubá. Por fim, no Capítulo 16, falando sobre os últimos tempos, o autor faz breve recapitulação e uma reconstituição hipotética da história do candomblé da Barroquinha. Esse livro representa um grande avan- ço no estudo da história da escravidão e das comunidades religiosas de origem africana no Brasil, que, atualmente, está conseguindo ser realizado na Bahia. Em outras regiões, como no Maranhão, nos dias de hoje, infelizmente, tais estudos estão ainda pouco desenvolvidos. Apesar de objeções que possam ser apresentadas, tratase de um trabalho de fôlego sobre a escravidão e o Candomblé ketu da Bahia, com informações preciosas sobre origens africanas dessa religião. No espaço aqui disponível, foi possí- vel apenas apresentar uma rápida síntese do conhecimento e das muitas notícias interessantes transmitidas por Renato da Silveira.


1 Emanuela S. Ribeiro, “O poder dos leigos: Irmandades religiosas em São Luís no séc. XIX”, UFMA, Curso de História. Monografia de conclusão de curso, São Luís, 2000

2 DVD CASA de Santo. Produção, Direção e Fotografia de Antônio Pastori. Maragogipe: Prefeitura Municipal de Maragogipe, [s.d.]


Sergio F. Ferretti
Professor Emérito da UFMA
São Luiz do Maranhão,
dezembro de 2010