segunda-feira, 20 de junho de 2016

TAMBORES SAGRADOS DEVEM SER TRATADOS COM RESPEITO





Os três tambores de nossa religião, também conhecido pelo nome de atabaques, dos quais não vejo a necessidade de citar seus respectivos nomes em Ioruba e nem Fon Gbe, pois todos já estão cansados de saber; deveriam ser tratados com mais seriedade e respeito.

O Tambor “por si só” já se encontra no “status” de sagrado, pois para ser confeccionado, uma árvore teve que ser sacrificada e nessa habitava o “espirito da árvore” do qual dividia sua morada com outras entidades. O Tambor para ser encourado um animal teve que ser sacrificado, em seu corpo habitava o “espirito do animal”.

Quando esses instrumentos de percussão, adentra um Terreiro de Candomblé, os mesmos são “sacramentados”, onde cada um deles são parcialmente abertos, para que através de determinados ritos propiciatórios a essência de três divindades femininas adentrem em cada um dos tambores e após o término da cerimônia, este são novamente fechados, ou seja, essas três divindades são “aprisionadas” em seu interior, e dali só serão previamente libertadas em um determinado espaço de tempo.

Poucos são aqueles que detém o conhecimento e entendimento, desse rito, pois se assim o fosse, a maioria das pessoas teriam mais respeito pelos tambores. Aqueles que estão por detrás deles, reproduzindo o som sagrado, não são mais importantes do que os próprios tambores. Primeiro reverenciamos os tambores, nos prostrando no chão, depois pedimos a benção aos seus tocadores.

Aquele que “toca” o tambor, tem que ser preparado para tal finalidade, não é todo mundo que pode tocá-lo, principalmente um noviço que entre em transe de possessão. Os tocadores de outros terreiros, só podem manuseá-los com a permissão do dirigente da Casa de Candomblé. Tambor que todo mundo toca e faz dele o que bem entender são aqueles nas “Escolas de Samba e não os de Candomblé”.

Por algum descuido, o tambor que caí no chão, nada se vê fazer para levantá-lo de sua imprudente queda. Simplesmente o colocam de volta no estrado, independente de ser um homem ou uma mulher, para a maioria tanto faz que levantou ou quem derrubou o tambor no chão.

Enfeitá-lo com laços e laçarotes é outra questão polêmica, quanto a questão de quem amarra e quem desamara os tambores, principalmente quando se cobre os tambores com pano e quando os deixam expostos. Sem mencionar no fato de quando os tambores devem se deitar para “dormir” e o momento certo de “despertar”.

Mas não é somente as pessoas que não respeitam os tambores, tenho visto muito que existem pessoas manifestadas que mesmo nessa situação, não tem nenhum respeito pelo tambor. Como no fato de dar cabeçada, barrigada, peitada e colocar as mãos no couro do tambor, com o intuito de pará-los. Não respeitam nem a ordem das “passagens rítmicas” que emanam dos tambores.

Os tambores que não foram consagrados e sacramentados, não passam de simples instrumentos de percussão, assim como qualquer outro instrumento musical.

Em minha opinião muito particular, os tambores que são preparados ritualisticamente dentro dos padrões de nossa Nação de Ketu, deveriam ser usados somente para esta finalidade. Aqueles que cultuam Caboclo e outras classes de espíritos, deveriam ter um “terno de atabaques” para tais fins. Acredito que não haja a necessidade de explicar o porque de meu pensamento.

Para finalizar, devo declarar-me que não sei tocar, mas sei “colocar defeitos”, pois tenho “bons ouvidos”, e alem do mais, essa não é a minha função. Não podemos esquecer que o som e a precursão é a “Alma do Candomblé”. Então, aquele que não sabe e não pode tocá-los se retire detrás deles, do qual estaria prestando um grande favor em prol de nossa estimada religião.


Baba Guido Olo Ajaguna

A FONTE DE ORIGEM DE UM ORIN ASA Ọ̀SÁNYÌN LIGADO À ṢÀNGÓ



Não vejo a necessidade de descrever o referido cântico, sendo que cada qual canta de uma forma ou de outra, assim como todas as cantigas de candomblé; mas acredito que independente de uma letra acrescida ou subtraída, a essência do cântico, permaneça a mesma. Muito conhecido entre o povo de santo, do qual é entoado durante os Ritos do Sasányìn, pois aquele que o conhece irá identificá-lo em “negrito” ao longo do texto.

Ogbè - Ọ̀bàrà

Ifá diz que esse Odù em Ire prenuncia vitória sobre os adversários do 
consulente para quem Ogbè - Ọ̀bàrà  é revelado. Ifa diz que esse consulente 
precisa oferecer sacrifícios e realizar rituais para àngó.
E assim disse Ifá:

Ogbè níí bo Àrìrà mọl
Àrìrà níí bol
Níí bogi oko
Díá fún Olúkòso làlú Jnrọlá
ọmọ arígba-ota ṣẹgun
Igbà ti nb láàrin ọtá

Ogbè é aquele que cobre a tempestade do Trovão
O Relâmpago está cobrindo a terra
Ele abrange as árvores da fazenda
Foram os que lançaram Ifá para Olúkòso Lalu Jnrọlá
que usou 200 pedras para vencer os seus adversários
Quando estava no meio de seus inimigos

Um dia Ṣàngó estava dormindo e acordou no meio de seus inimigos. 
Era difícil para ele tomar qualquer decisão em sua vida. 
Cansado de sua existência, àngó foi consultar Ifá.
Como ele poderia derrotar seus inimigos? 
O Babalawo garantiu-lhe que iria ser temido, respeitado e reverenciado
por seus inimigos. Tanto os amigos e inimigos, não teriam forças capazes
de enfrentá-lo. Ele foi aconselhado para oferecer em sacrifício um galo, 
óleo de palma e 200 seixos, grande almofariz e uma quantia em dinheiro. 
Os seixos foram colocados dentro do almofariz e outro galo foi oferecido. 
Ele realizou a oferenda. Uma enorme tempestade se formou no céu, 
os relâmpagos e trovões causaram temor aos inimigos de àngó e esses 
se dispersaram em uma grande confusão entre eles. A partir desse dia àngó
foi respeitados não só por seus inimigos mas também por seus amigos.
 
Ogbè níí bo Àrìrà mọl
Àrìrà níí bol
Níí bogi oko
Díá fún Olúkòso làlú Jnrọlá
ọmọ arígba-ota ṣẹgun
Igbà ti nb láàrin ọtá

Ogbè é aquele que cobre a tempestade do trovão
O Relâmpago está cobrindo a terra
Ele abrange as árvores da fazenda
Foram os que lançaram Ifá para Olúkòso Lalu Jnrọlá
que usou 200 pedras para vencer os seus adversários
Quando estava no meio de seus inimigos

Wọn ní kó sákáal, bọ ní íe
Ò gbbọ, ó rųbọ
È̀dọọ yín ì bá gbó
Ę ó dúró d’Àrìrà?

Ele foi orientado a oferecer sacrifício
Ele cumpriu o sacrifício 
Se o seu fígado é tão forte quanto você pensa 
(se você é tão atrevido quanto pensas)
Por que você não esperou e enfrentou o Raio?

Kí l’Àrìrà fi ṣẹt?
Igba ọta
L’Àrìrà fi ṣẹt
Igba ọta
 
O que foi que àngó usou para derrotar a conspiração?
Duzentos seixos
Foi o que usou àngó para derrotar a conspiração
Duzentos seixos
 
Ifa diz que o consulente irá derrotar seus inimigos e suas conspirações.
Tantos os amigos o respeitarão, assim como seus inimigos o temerão.


 

Baba Guido Olo Ajaguna.

domingo, 19 de junho de 2016

I CHING e o ORÁCULO DE IFÁ

A principio, o título dessa postagem, pode parecer estranho aos olhos de meus leitores. Mas o intuito deste new post é apresentar alguns pontos de semelhanças nos métodos divinatórios do I Ching (chinês) e o método de Ifá (iorubano).

De suma importância mencionar, que os fenômenos dos oráculos arcaicos não estão somente limitados a China e a África, pois podemos encontrá-los nas mais diversas culturas, sob as mais diferentes roupagens. Entendo que os oráculos são manifestações do mesmo espírito de busca de interpretação do desconhecido.

Em uma opinião mui particular, sem desdenhar os demais oráculos existentes, o enorme êxito despertado pelo I Ching e Ifá em todo o mundo, decorre da exatidão de suas respostas.

A origem deles ainda é de difícil verificação. O fato indiscutível é a sua constância em ambos os continentes. Pertencem ao subsolo da raça humana e parecem provir de uma mesma camada do inconsciente coletivo onde vamos encontrar os arquétipos. 

Podemos formular hipóteses sobre as suas origens uma delas nos falam que ambas as tradições são extraterrena. Deparamos personagens míticos da mesma espécie nas duas culturas referente às origens dos povos. E em todas elas a mesma indicação de uma origem extraterrestre, ainda que embora, essa teoria seja de grande polemica.

Limito-me a descrever o complexo método de manipulação de ambos os oráculos, assim como seus ritos propiciatórios que antecedem a consulta, pois seu contexto não cabe nesse trabalho.
Para se obter os símbolos do I Ching, denominado de hexagrama serão utilizados cinqüentas varetas de caule de milefólio (Achillea milefolium – Asterraceae).


Esse signo será formado por dois trigramas. Dessas 50 varetas, uma será retirada e as 49 restantes serão divididas em quatro grupos; deverão ser manipuladas por seis vezes, e a cada manejo será registrada uma linha cheia ou vazada em sentido horizontal. Os traços lineares devem ser registrados de baixo para cima. Dentro desse sistema divinatório existem 8 trigramas primários que dão origens a 64 hexagramas, ou seja, 8x8.


 No caso de Ifá, os símbolos são denominados de Odù, e para se obter seu registro, são utilizados dezesseis coquinhos (nozes) de um tipo especial de palmeira de dendê que ao invés de apenas dois olhos como nas palmeiras comuns, apresentam três ou mais olhos. (Elais guinessis - Idolátrica - Palmae ).




Esse signo, do qual tomo a liberdade de denominá-lo de octograma, será formado por dois tetragramas. Os respectivos caroços, conhecidos pelo nome de Ikin Ifá serão manipulados por oito vezes, e a cada manuseio será registrada um traço único ou duplo, em posição vertical. Inserido no sistema divinatório de Ifá existem 16 signos primários que darão origens a 240 signos secundários, totalizando em 256 símbolos, ou seja, 16x16.  Da mesma forma que o I Ching, os traços devem ser riscados de baixo para cima.
(fotos dos caroços, tetragrama e octagrama)



“A identidade é flagrante”



Observem que o hexagrama do I Ching é o resultado da fusão de dois trigramas, em contrapartida com a fusão dos dois tetragramas, que dão origem ao octagrama de Ifá, onde as linhas extremas se fundem “numa só” comum aos dois oráculos, pois tanto um trigrama, assim como um único pentagrama, não poderia ser concluída a consulta ao oráculo.


É interessante notar que o número 4 (a unidade quaternária) básico na contagem das varetas do I Ching, está presente no Oráculo de Ifá se comparado ao número 16 (4x4).

Tanto no I Ching como no Ifá, existe um método mais rápido de se obter os respectivos símbolos; no primeiro a utilização de três moedas chinesas que serão lançadas por seis vezes.


No segundo é utilizado uma corrente com oito favas (Schrebera arborea - Oleacea), conhecidas pelo nome de Ọ̀pẹ̀lẹ̀ Ifá. Com um único lançamento do rosário divinatório aparecem 2 figuras que possuem um lado côncavo e outro convexo, que combinadas, formam o Odù.





Outro fator interessante, é que após o registro tanto dos signos do I Ching, assim como os signos de Ifá, uma série de narrativas são iniciadas, em um texto rico em parábolas, metáforas e personagens míticos.

Em tempos atuais, as sucessivas edições e comentários sobre o I Ching e Ifá, bem como inúmeros grupos de estudos nas maiores universidades do mundo, a eles dedicados, são uma prova de que os seus ensinamentos, pouco ortodoxos em matérias de ciência, são uma realidade que não pode ser contestada.

Cabe-nos agora referirmos-nos a importância que esses ensinamentos arcaicos podem trazer ao nosso mundo. Acredito que há uma necessidade urgente de reformulação dos padrões tradicionais científicos, cito, “Religião e Ciência se fundem, mas não se confundem”.

Entendo que esteja acontecendo no Mundo Espiritual à “Revolução equivalente à ocorrida no Mundo da Ciência” quando, na Renascença, as concepções homo centradas foram substituídas por um universo de múltiplas dimensões.

O pensamento racional, lógico, concreto, irá ser abalado gradativamente à medida que técnicas arcaicas vão ressurgindo e demonstrando a sua extrema adequação no tratamento dos fenômenos. Nota-se desde um século atrás, aproximadamente, uma incontida sede pelos métodos arcaicos.

Todos os caminhos são validos quando podem levar o homem ao encontro de si mesmo; mesmo que essa busca usou métodos não convencionais para alguns. Deixemos de lado os nossos preconceitos prontos para compreender a linguagem que os oráculos nos fala, “o som de idades perdidas ressoa em suas palavras”.


Baba Guido Olo Ajaguna

quarta-feira, 15 de junho de 2016

ÒS̩ÙPÁ – A Lua



ÒS̩ÙPÁ – A Lua

O termo Òs̩ùpá esta averbado nos dicionários Yorubá – Português para a palavra “Lua”. Entretanto, dentro de um contexto religioso, não se refere apenas ao nome de um corpo celeste e sim de uma Divindade, cuja essência é puramente feminina, da qual nasce no Odù Ogbè-Òsá.

Essa enigmática Divindade, também conhecida por seu epíteto Ìkán Ọrún – Um Pingo no Firmamento [Odù Ọkànràn-Òfún] revela seus poderes sobrenaturais em vários Odù Méjì e seus Ọmọ Odù.

Os princípios metafísicos expressos nos Signos de Ifá, postulados da física hiperdimensional afirmam que os portais são abertos e fechados no Àiyé – Terra, como resultado da interação de outros planetas, do sol e da lua. Vejamos algumas citações da Lua dentro do corpo dos seguintes Odù:

Odù Ogbè-Ọyẹkú
“Apenas uma Lua é muito mais luminosa do que todas as Estrelas”  “A Lua Cheia atingiu seu mais luminoso, anunciando um novo dia”

Odù Ogbè-Ò
“Seus pedidos devem ser dirigidos à Órùn – Sol e Òs̩ùpá – Lua” “Revela o Adura – Oração, que deveremos fazer a primeira Lua do Ano Novo”

Odù Ogbè-Òfún
“Com ou sem a Lua, o Ọba (Rei), sempre será respeitado quando o encontramos” “A Lua sobre Ọyọ, ajuda o Alafin (Senhor do Palácio), a saber, o que esta acontecendo nas províncias” “Revela de como Òs̩olofín outorgou que a Òs̩ùpá reina-se somente durante a noite”

Odù Ìwòri Méjì
“As conseqüências pelo fato de Òs̩ùpá não ter realizado o sacrifício determinado por Ifá”

Odù Ìwòri-Irosun
“A guerra entre o Povo que cultuava Órùn e o Povo que cultuava Òs̩ùpá

Odù Iwori-Irete
“A Terra onde de dia fazia muito calor e a noite muito fria, onde no principio muitos homens morreram”

Odù Òdi-Ògúndá
“Ifá de Òs̩ùpá proíbe seus filhos em ficar ao relento do luar”

Odù Ọkànràn-Ògúndá
“Determina que em certas ocasiões se ofereça Saraẹkọ à Òs̩ùpá

Odù Ògúnda-Ọkànràn
“A ligaçã entre Oronã-Àpádá e Òs̩ùpá” “Um sacrifício à Òs̩ùpá”

Odù Ògúndá-Òs̩é
“A ligação entre Òs̩ùpá e o período menstrual da mulher”

Odù Òsá Méjì
“Rege as relações existentes entre Àiyé e Òs̩ùpá” “Os pássaros que desejavam destruir o algodoeiro de Ọbatala pedem ajuda à Òs̩ùpá”

 Odù Òsá-Òdi
“Porque os pescadores se orientam pelas fases da lua, para que suas pescarias tenham êxitos”

Odù Òtúrá Méjì
“O Sol não pode capturar a Lua”

Odù Òs̩é-Ogbè
“A influência de Òs̩ùpá em seu Quarto Minguante sobre as mulheres”

Odù Òs̩é-Ọyẹkú
“Se conhece a Terra pelo barro e o Céu pela Lua”

Odù Òfún Méjì
“Revela que seu astro regente é a Lua” “A Terra da Escuridão” onde somente existia a Luz do Luar.

Odù Òfún-Ogbè
“Nasce à cerimônia do sacrifício à Òs̩ùpá.

 Odù Òfún-Òsá
“Os fenômenos e correntes astrais de Òs̩ùpá e seu ciclo lunar” “A rivalidade entre a luz do solar e a luz do luar”

A etimologia da palavra Òs̩ùpá ainda se torna um mistério para a compreensão humana, do qual repousa na obscuridade.

A maioria das sociedades tem honrado a presença da Lua como um Ser Místico, sobre tudo a Sociedade Gẹlẹdẹ, onde em noite de lua crescente durante as reuniões denominadas de Ọrọ Ẹfẹ, surgem dançarinos carregando mascaras, onde podemos notar claramente o símbolo da lua crescente, enquanto outros surgem com mascaras, onde a “meia lua” esta em uma posição invertida.







A simbologia da lua crescente, durante o Ọrọ Ẹfẹ esta associada ao fato de permitir que todos possam ver claramente e desfrutar dessa sagrada cerimônia. “A Luz da Lua Crescente aclara como os olhos de Òs̩olófìn, dão claridade a todos nós” [Odù Ogbè-Òsá].

Outro poder simbolizado pela lua crescente é também uma referencia ao “tempo do tempo” da cerimônia e a tradição de uma vigília; se trata do momento mais apropriado para apelar às mulheres idosas e outras Divindades Anciãs, que são mais atentas durante as horas de escuridão. “A afinidade sagrada entre a Lua e as Mulheres é encontrada dentro de nosso útero, aquele lugar escondido que se abre para revelar nosso fluxo sagrado, seguindo em uníssono, o movimento da lua ou o surgir de um novo ser” [Ìyá Ademuyiwa].

Durante o Ọrọ Ẹfẹ são recitados várias canções populares que fazem alusão à Òs̩ùpá. Essas canções são denominadas de Ẹka, que nem sempre são longas. Muitas vezes eles são breves, um tipo de condensado do texto mais longo, que pode ser repetido várias vezes, ou podem ser considerados imagens verbais sucintas que evocam um contexto mais amplo. Como um provérbio ioruba explica, “é necessário dar apenas metade do discurso, para a pessoa bem educada, dentro dele”, isto é, “um fragmento é suficiente para recordar um texto ou um contexto inteiro”. A Ẹka abaixo é um fragmento que alude a uma canção popular:

...la la la la e jó e e Òs̩ùpá jó e...
...o le l’Òs̩ùpá ko le já...

Com grande brevidade evoca uma canção sobre um eclipse, comparando-o a uma luta entre Órùn – O Sol e Òs̩ùpá – A Lua; e que mesmo assim a Lua continua a seguir o seu caminho dançando.

A relação entre Òs̩ùpá e os Òrìs̩à, principalmente com as Divindades Fluviais é representada por uma Lua Crescente em miniatura, presa a uma corrente de elo, com vários outros emblemas também em miniatura. A essa peça que complementa os “assentamentos” de nossas divindades é popularmente denominada entre o povo de santo de “penca”.

Em algumas linhagens, ou seja, na minoria delas, antes de qualquer rito ou cerimônia, de pequeno ou grande porte, a Lua é consultada para saber em que fase lunar a mesma se encontra; enquanto que para algumas linhagens isso não passa de meras superstições e crendices europeias.

Baba Guido Olo Ajaguna





terça-feira, 6 de outubro de 2015

AS DROGAS E O SAGRADO

"Uma Luz nas Trevas"


Em nossa sociedade moderna, o doente toxicômano é frequentemente visto em várias esferas religiosas e dentro de nossa religião não é diferente. Muitos são aqueles que adentraram nosso culto com o intuito de sanar sua patologia; alguns procuram a religião como um tratamento alternativo, baseado em uma aliança entre a nossa medicina tradicional a medicinal moderno, ou seja tratamento clínico e obviamente outros não reconhece sua enfermidade psíquica, somente procurando ajuda quando ultrapassar com estrépido a barreira do senso ou da realidade comum. O Tradicionalismo reza que o “senso da vida” está estreitamente ligado à noção de sagrado na medida em que neste contém valores mais profundos da existência como a vida e a morte. Muito tem se discutido sobre a questão da Matéria, Espírito e Espiritualidade constituírem um todo, então, refletir sobre o “senso e a realidade” é refletir sobre a Vida.

O toxicômano teria perdido ou poderá vir a perder a noção do sagrado? Sabemos que a religiosidade e a espiritualidade vêm sendo claramente identificadas como fatores protetores ao consumo de drogas em diversos níveis. Estudos têm apontado para evidência de que as pessoas que frequentam regularmente um culto religioso, ou que dão relevante importância à sua crença religiosa, ou ainda que praticam, no cotidiano, as propostas da religião professada, apresentam menores índices de consumo de drogas lícitas e ilícitas. Além disso, os dependentes de drogas apresentam melhores índices de recuperação quando seu tratamento é permeado por uma abordagem espiritual, de qualquer origem, quando comparados a dependentes que são tratados exclusivamente por meio médico.

Desde a antiguidade, os grandes sacerdotes estimulavam um importante “ponto” de nosso cérebro: a Glândula Pineal, que acreditasse desempenhar um importante papel na espiritualidade do Homem e funciona como um elo de ligação entre o corpo e o espírito, em resumo neste ponto reside a “consciência espiritual” do Homem refletida através do corpo físico. Para um melhor entendimento sobre esta polêmica questão, desmembro o assunto em dois níveis: o Mundo Científico e o Mundo Religioso.

No Mundo Científico.

A Glândula Pineal ou epífise neural, apesar das funções fisiológicas desta glândula serem muito discutidas, parece não haver dúvidas quanto ao importante papel que ela exerce na regulação dos chamados ciclos circadianos, que são os ciclos vitais (principalmente o sono) e no controle das atividades sexuais e de reprodução. Há algumas décadas, acreditava-se que a Glândula Pineal fosse um órgão vestigial, assim como o apêndice vermiforme em humanos, sem função atual. No entanto, mesmo órgãos vestigiais podem apresentar alguma função, ocasionalmente diferente da função do órgão do qual se originou. Na Universidade de Yale descobriram que a melatonina está presente em altas concentrações na pineal. A melatonina é um hormônio derivado do aminoácido triptofano, que tem outras funções no sistema nervoso central. A produção de melatonina pela pineal é estimulada pela escuridão e inibida pela luz. O Jornal FASEB publicação oficial do Federation of American Societies for Experimental Biology, publicou experimentos que a Glândula Pineal podem influenciar a ação de drogas de abuso como a cocaína e antidepressivos e pode também contribuir na regulação da vulnerabilidade neuronal a lesões.

No Mundo Religioso.

Dentro do contexto religioso Iorubá, essa glândula esta ligada ao Orí Inú “a cabeça interior” e Ọ̀rúnmìlà, ou seja, ao Saber Divino. Nela está contida a essência da personalidade, o verdadeiro caráter, o Espírito do Homem que emana diretamente do Deus Criador – Olódùmarè.
Orí Inú é o Ser Interior ou o Ser Espiritual do Homem e é imortal. O Corpo Literário de Ifá, mais precisamente no m Odù Ogbè Ogúndà, nos revela que Orí Inú tem a supremacia sobre o Orí Òde “a cabeça física”. Isto sugere, portanto, o domínio do Espirito sobre a Matéria, que o sucesso ou fracasso do Ser exterior depende essencialmente da natureza dinâmica do interior do Homem e atua como fusão entre nosso consciente e inconsciente. Sendo a parte mais importante do corpo, tem prioridade sobre os ritos litúrgicos, sobre tudo os ritos iniciáticos e constantemente “fortalecido” através da transmissão de àṣẹ, durante os ritos de Iborí que visa restaurar o equilíbrio e a harmônia entre as duas partes.

Na concepção de outras crenças.

Os Hindus a conhecem como Shakra Agna, “o chacra do terceiro olho” o principal órgão do corpo, possuidor de dois chacras ou centros de energia responsáveis pelo desenvolvimento extra físico, como receptores e transmissores de energia vital.”

A glândula pineal tem sido considerada – desde René Descartes em meados do século XVII, que afirmava que nela se situava a alma humana - um órgão com funções transcendentes. Além de Descartes, um escritor inglês com o pseudônimo de Lobsang Rampa, entre outros, dedicaram-se ao estudo deste órgão. Com a forma de pinha (ou de grão), é considerada por estas correntes religioso filosóficas como um terceiro olho devido à sua semelhança estrutural com o órgão visual. Localizada no centro geográfico do cérebro, seria um órgão atrofiado em mutação com relação em nossos ancestrais.”

Os defensores destas capacidades transcendentais deste órgão, consideram-no como uma antena. A glândula pineal tem na sua constituição cristais de apatia. Segundo esta teoria, estes cristais vibram conforme as ondas eletromagnéticas que captassem, o que explicaria a regulação do ciclo menstrual conforme as fases da lua, ou a orientação de uma andorinha em suas migrações. No ser humano, seria capaz de interagir com outras áreas do cérebro como o córtex cerebral, por exemplo, que seria capaz de decodificar essas informações. Já nos outros animais, essa interação seria menos desenvolvida. Esta teoria pretende explicar fenômenos paranormais como a clarividência, a telepatia e a mediunidade."

A Doutrina Espírita dedica-se à formulação destas explicações desde Allan Kardec em meados do século XIX. Na obra Espírita Missionários da Luz, ditada pelo espírito de André Luiz, através da psicografia do médium Francisco Cândido Xavier, a epífise neural é descrita como a glândula da vida espiritual e mental. Para a Doutrina Espirita, este órgão de elevada expressão no corpo etéreo. Preside os fenômenos nervosos da emotividade, devido a sua ascendência sobre todo o sistema endócrino, e desempenha papel fundamental no campo sexual. Na mesma obra, André Luiz descreve ainda que a epífise está ligada à mente espiritual através de princípios eletromagnéticos do campo vital, que a ciência formal ainda não pode identificar, comandando as forças subconscientes sob a determinação direta da vontade. Na atualidade, o assunto é estudado pelo especialista Dr. Sérgio Felipe de Oliveira. Segundo ele, a pineal seria capaz de gerar forças psíquicas a todos os armazéns autônomos do órgão.”

Apesar de alegações de diversas correntes de que a pineal seria uma "antena" por onde a Alma transmitiria os pensamentos para o cérebro, a extração completa da glândula por cirurgia, realizada em casos de tumores benignos ou malignos, não leva à morte ou qualquer alteração na capacidade de pensamento.

Entendo que aqueles que iniciam e se consagram dentro de nossa religião, passam a ter duas vidas: a religiosa e a profana. Certo de que a primeira influência por demais sobre a segunda... Se analisarmos atentamente o texto acima descrito, poderia perfeitamente concluir que as drogas afastam os adeptos da verdadeira essência do sagrado... Vários são os sacerdotes, principalmente os Babalawó afirmam categoricamente, que o consumo de drogas “enfraquece o poder” recebido durante os ritos litúrgicos; dificulta a comunicação entre os dois planos de existências ọ̀runàiyé “o invisível e o visível” “o espiritual e o material”. O mais grave de tudo, que a droga implica profundamente no Ìwà Pẹ́lẹ̀ – O Caráter do Homem, de suma importância no ciclo de vida de um indivíduo religioso.

Baba Guido Olo Ajagùnà