quinta-feira, 7 de julho de 2016

SAKPATA vs ṢỌPỌNNÁ e outros mistérios perdidos no tempo


Teria Sakpata imigrado para a antiga Nigéria 
ou 
Ṣọpònná imigrado para o antigo Dahomé?

Sakpata entre os Ewe Fon e



Ṣọpònná entre os Iorubas.

Divindades distintas ou a mesma divindade cultuada de formas diferentes?


Visando e primando pela perpetuação do culto as divindades de Panteão Ioruba, exponho neste tópico algumas informações acerca de Sakpata, Ọbalùàiyé, Ọmọlu e Jagun Agbaba, para darmos inicio a um intercâmbio maior sobre o conhecimento desta família da qual a denomino de Iji Jẹpẹtẹwu ou mais conhecida pelo povo de santo como A Família Ji.


SAKPATA

Para um melhor entendimento, deveremos saber que no antigo Dahomé, existe uma divindade no Panteão Ewe Fon, denominada de Sakpata, o Vodun da Varíola... A etnia Ewe Fon e conhecida popularmente no Brasil pelo término Jeje e em Cuba por Arara... Da mesma forma que Ṣọpònná seu nome não pode ser pronunciado, seus adeptos o preferem chamá-lo de Ayinon “O dono da terra”... Sakpata pertence a primeira linhagem da família de Nyohwe Ananu uma Vodun que possui característica idênticas as de NàNá Burúkú... Os nomes mais conhecidos de Sakpata no Novo Mundo são Azontunu e Avimage... Segundo reza a tradição, um grupo expedicionário da região de Savalou que estavam ao norte do antigo Dahomé, encontrou os Kadjanu (nagôs vindos da região de Badagris) em Damé, as margens do rio Wèmé, os quais o seguiram até Savalou, levando com eles sua divindade protetora dos quais denominaram em língua Fon de Sakpata Agbosu... Em Savé, afirma-se que Ṣọpònná teria vindo do reino de Ọ́yọ́... Essa remota origem nagô-iorubá é sublinhada pelo fato de que os Vodunsi (iniciados) de Sakpata são denominados Anagonu, que significa forasteiro de onde se originou a corruptela nagô... Em Dassa Zoumé, Ṣọpònná é conhecido por Sakpata... Os Sakpatanon grã-sacerdotes do Culto à Sakpata tinham uma grande influência sobre a realeza, porém, os reis jamais tiveram muita estima pelos sacerdotes desse culto. O mesmo culto passou por momentos de aceitação e reprovação; foi restabelecido por várias vezes e em seguida proscrito formalmente, pelos soberanos do reino do Dahomé, da mesma forma que os Oluwo Ipopo, os Sakpatanon foram mortos e muitos expulsos do território do Benim.

ṢỌPỌNNÁ

Entre os iorubas Ṣọpònná é temível e perigoso, divindade das epidemias, sobretudo a varíola, sua maior arma de punição aos malfeitores e aqueles que o desrespeitam. As altas temperaturas corpórea, seguidas de delírios causados pela infecção de doenças contagiosas, não são mais do que sintomas da ira de Ṣọpònná contra sua vitima. Quando temos alguma razão para pensar que um enfermo esteja sob a manifestação maléfica de Ṣọpònná é descrito de Ilẹ̀gbóná – Varíola; Ìgbóná – Febre ou até mesmo Ilẹ̀ gbígbóná – Terra quente, ou seja, “a terra aonde o enfermo encontrasse está demasiadamente quente” é a presença do Deus da Varíola e precisa ser apaziguado. Neste caso os iorubas não pronunciam mais o nome Ilẹ̀ gbígbóná e sim empregam um eufemismo e dizem exatamente o contrário Ilẹ̀ Tútù – O solo está frio, vertendo água de dentro para fora da casa. Terrivelmente temido, seu nome não deve ser pronunciado, sobre tudo perante aos enfermos, quando invocado é mais indicado usar nomes com expressões adulatórias, como: Ọbalùàiyé – Rei e Senhor da terra; Olùàiyé – Senhor da terra ou Oloòde – Senhor dos espaços abertos. Quando um enfermo padece de qualquer doença contagiosa e se crê que a causa seja Ṣọpònná os iorubás descrevem a situação em términos de profundo respeito a divindade. Eles dizem Ó n sin Ọba – Ele está sob a vontade do Rei; Ilẹ̀ gbígbóná n bá a jà – A terra quente há posto sua mão sobre ele ou a terra quente o está afetando; Ó gb' ofá ou Ofá bà á – Ele atinge sua vítima como uma flecha ou Ele foi atingido por uma flecha. Ṣọpònná é descrito como Alápó – Alguém que maneja o temor e quando um enfermo morre como resultado de sua aflições, usualmente não se diz Ó kú – Ele morreu, se diz Ọba mú nlọ́ – O rei o o levou ou ainda Ilẹ̀ gbígbóná gbé e lọ́ – A terra quente o levou. Os mitos relatam que em dia de sol escaldante, em especial ao meio-dia, Ṣọpònná está vagando por todos os lugares e comumente se alerta a não usar o vermelho ao “sol a pino” correndo o risco de insultá-lo, do qual teriam sérias conseqüências. Deve-se ter cuidado, especialmente durante a temporada de seca, de não fazer nada que o ofenda, A sòroó pè léèrùn – Alguém cujo nome não é propicio se chamar durante a época de seca. Os antigos entendem desta forma porque as maiorias das epidemias de varíola foram constatadas em épocas de seca, além de que os iorubas crêem que Ṣọpònná esteja nessa época particularmente ativo. Ṣọpònná é considerado feroz e muitas vezes implacável, então não insultá-lo é a melhor prevenção de não ser molestado por uma divindade tão perigosa.

Ṣọpònná é a única divindade de que sua vontade, qualquer que seja sua manifestação, deve ser aceita, não somente com resignação senão com uma manifestação de prazer e gratidão. Por exemplo, os parentes de alguém que morre de varíola não deve se lamentar o mostrar que choram pela morte de um ente querido. Em vez disto eles devem estar alegres e felizes e mostrar que estão amplamente agradecidos pela atitude do Rei da Terra. Assim, Ṣọpònná é conhecido por Alápadúpé – Alguém que mata e se agradece por isso.

Sob seu absoluto domínio está a crosta terrestre; o solo onde o homem habita, constrói, cultiva e deposita seu cadáver após a morte; ele nutre os homens dando-lhes o milho e outros grãos do solo, mas também os pune fazendo com que, através de suas peles, saiam os “grãos” que eles comeram. Filho primogênito de Nà Bùkùú ou mais conhecida no Panteão Ioruba de NàNá Burúkú. Seu maior companheiro, um ancestral denominado de Ãle que habita o lado de fora de sua casa; nada o faz sem antes prestar reverencia a ele; seu nome não deve ser pronunciado após o pôr do sol. Na crença ioruba Ṣọpònná é a “Destruição que surgiu em uma noite”.

A escassez de informações sobre a origem do culto o mantém na obscuridade. Isso ocorreu devido ao fato deste culto ser de caráter reservado e em épocas remotas era proibido falar sobre o assunto. Acreditasse que se trata de uma divindade estrangeira, agregada ao Panteão dos Iorubas ou do retorno de origem ioruba longínqua, levadas por uma das inúmeras migrações em direção ao oeste da Nigéria e imigrações ao país vizinho a Republica Federal do Benim, antigo Dahomé. Ao pouco que se sabem, os antigos iorubas citam que Ṣọpònná teria vindo do território Fon e outros que tenha retornado a suas terras de origem, o território Iorubá... Na Cidade de Ketou há divergência de opiniões quanto a origem de Ṣọpònná... Alguns acreditam que tenha vindo a Ketou de Dassa Zoumé, segundo alguns, de Adja Popo, segundo outros, de Aise e uma terceira opinião de Holi... Para um melhor esclarecimento, as maiorias dos estudiosos afirmam que o Culto ao Deus da Varíola, tenha sido oriundo do Leste Ioruba.

A Medicina Tradicional de se curar a varíola denominado de Ẹ̀rọ ou Oògùn Ṣọpònná era conhecido, entre os iorubas, unicamente pelos sacerdotes de Ṣọpònná, que fizeram dele grande comércio e elevaram a varíola à posição de uma divindade temível. Na qualidade de representantes do “senhor e rei da terra”, os corpos e os bens das vítimas pertenciam de direito aos sacerdotes de Ṣọpònná. Esses sacerdotes mantinham em suas casas, cabaças com parte dos cadáveres da vítima da varíola, tais como um braço ou pé; potes contendo um líquido escuro, feito com a água extraída do cadáver ou da água que serviu para lavar o corpo, enquanto a pessoa estava viva; recipientes com um pó escuro, proveniente das escamações secas, deixadas pela varíola. Essa água ou esse pó eram jogados, durante a noite, na frente da casa das pessoas a quem se quer infectar. Os moradores ao saírem de casa, entravam em contato com os germes. Assim que uma ou mais pessoas da família se contaminasse, a erupção da pele aparece e um sacerdote de Ṣọpònná é convocado. Durante o tratamento Ẹ̀bẹ̀ – súplicas, preces eram constantemente recitadas com a finalidade de propiciar e apaziguar a fúria de Ṣọpònná.

De dez sacerdotes do culto, nove ajudam mais a desenvolver a doença do que interrompê-la. Era de seu interesse agir assim, além de grandes somas que recebem, eles reivindica todos os bens do doente, caso esse venha a falecer. Esses sacerdotes inescrupulosos retiravam os cadáveres da casa, mas não o enterravam no bosque com de costume, a não ser jogá-los no mato, onde os porcos os comiam e, algumas vezes, os pedaços do corpo eram levados para as aldeias vizinhas, contribuindo para espalhar o mal. Assim os sacerdotes faziam negócios muito lucrativos. Os sacerdotes que procediam de maneira correta conduziam o enfermo ao templo de Ṣọpònná e lá os sacerdotes os lavam com areia de praia quente e remédios secretos.

A História dos Iorubas em meados do século XVIII relata que um surto de epidemia da varíola dizimou a população de Abeokuta. Centenas de pessoas morriam todos os dias, metade da população fora atingida. Os governantes locais realizam uma sessão e certo número de adeptos de Ṣọpònná foram executados e outros expulsos, e suas casas incendiadas.

ỌMỌLULU ỌRỌGBO

Divindade que se funde ao culto de Ṣọpònná, mas em muitas localidades não se confunde. A região de Kétou, cidade fronteira entre a Nigéria e o Benim, é a única região em todo o território ioruba onde Ọbalùàiyé e Ọmọlu são considerados, ao que parece, como uma única divindade... Seu templo é separado de sua mãe mítica NàNá Burúkú... Com essa mesma característica ele é conhecido no Brasil, onde a influência Kétou é muito grande entre os descendentes de escravos que para lá foram levados. Em Ile Ife não existe culto à Ọmọlu e muitos ali o desconhecem. Contrário na região Mahi, onde seu culto se destinge totalmente de Ọbalùàiyé. Ao que se sabe, seu culto se originou do Oeste Iorubá.

A tradição local da Cidade de Topli, no Togo, Ọmọlulu Ọrọgbo é considerado uma divindade feminina, que saiu das águas segurando um ṣaṣara – emblema ritualístico e em uma das mãos e um gbada – facão na outra. Este facão é uma representação do crocodilo, animal sagrado entre as divindades dos rios... Em Abeokuta Ọmọlu é considerado um Òrìṣà feminino, onde o Culto à Ṣọpònná esta proibido desde 1884, divide seu templo com NàNá Burúkú e a ambas as divindade, quando se oferece sacrifícios de animais não se utilizam de facas... É possível que existam duas divindades com o mesmo nome, um de cada sexo, conforme se verá... Na cidade de Abeokuta, Ọmọlu é chamado de Olù Odò – Senhor do riacho (água) e Ọmọlu Òrìṣà omi ni – Ọmọlu é uma divindade das águas... Esse riacho é conhecido com Odomọlu – o riacho de Ọmọlu e esta localizada em direção ao poente.

De suma importância mencionar, que o Templo de NàNá Burúkú esta voltado em direção ao poente e neste são realizados as oferendas somente ao por do sol, da mesma forma que se pratica nos Terreiros Tradicionais da Bahia.
 Na Cidade de Aise, existe em seu templo uma grande lança esculpida, denominada de Ọkọ Ọmọlu, na qual são representados por três personagens superpostos, representando Òṣumare, o próprio Ọmọlu e Iroko... Em Dassa Zoumé Ọmọlu é duplo, masculino segurando um facão e feminino segurando um abẹ́bẹ̀ – leque e um irùkẹ̀rẹ̀ – ornamento de cauda de bovino. Seu culto foi trazido de Aja Aguna e agregado em Dassa Zoumé na época do Rei Onigbo – quarto soberano de Dassa Zoumé...

Nas proximidades de Atakpamé, cidade do Togo onde existe um dos principais templos de NàNá Burúkú, em uma aldeia igualmente chamada de Adja Agouna, existe um templo dedicado à Ọmọlu Arawe uma divindade masculina... em outra aldeia da região, conhecida por Gbekon, encontra-se um templo de sua contrapartida feminina, denominada de Ọmọlu Idji Aguna... Nesta região ambos os Ọmọlu são divindades totalmente distintas de Ṣọpònná e o sacrifícios de animais à Ọmọlu Arawe e Ọmọlu Idji Aguna são realizados sem que se utilize uma faca para imolar o animal. Seus interditos são o vinho de palmeira no que se diferencia de Ọbalùàiyé onde é ofertado este tipo de vinho...

AJAGUN AGBAGBA

Ajagun ou simplesmente Jagun é uma divindade guerreira, originário de Ekiti Ifòn, pois acreditasse que sejam filhos de um dos Òrìṣà Funfun. Ao que se sabe é considerado um Guerreiro Branco... Considerado invencíveis, por sua bravura e coragem, nunca perdeu uma batalha, o que lhe deu o título de Keledjegbe – O Guerreiro Invencível. Ajagun se refugiou na Cidade de Ijena, terras do temível Ṣọpònná, onde passa a ser agregado à família de Ọbalùàiyé tornando-se um dos Guardiões do Culto do Deus da Varíola.

Importante mencionar que a cidade ioruba Ijena ou Jena foi fronteira com o antigo Dahomé e outrora um dos grandes centros de contacto e aculturação entre duas das maiorias etnias da África os Ewe-Fon e os Yorubá.

Em território ioruba o descrevem segurando uma lança – Ọkọ̀ em uma das mãos e um facão – gbada na outra. Sua cor predominante é o branco e seus interditos são o vinho de palmeira, cabe ressaltar que o vinho de palma é tabu para todas as divindades da família de Òrìṣà-Nlá.

CONCLUSÕES

Não poderia nos tempos de hoje chegar a uma conclusão definitiva a não ser a maiores questionamentos, sobre esses diversos aspectos de Ọbalùàiyé, Ọmọlu e Jagun Agbaba:

Duas divindades de origem diferente e pertencentes a antigos grupos culturais diferentes, divindades essas que vieram uma do leste (Ṣọpònná) e outro do Oeste (Ọmọlu), unindo e assumindo um caráter único em Ketou ?

Trata-se de uma divindade única, de origem ioruba e de origem Tapa (Nupe) mais longínqua, trazida para o oeste por uma das numerosas e antigas migrações que as tradições mencionam, e do retorno, em seguida, dessa divindade para seu ponto de partida, trazendo um novo nome, que originalmente, não passava de simples epíteto ?

Seria Ọmọlu Idji Aguna divindade feminina que saiu das águas a conhecida Nà Yyógbáyin já que a ambos não se realizam sacrifícios com faca?

E quanto a Jagun, seria este Ọmọlu Arawe divindade masculina, baseando-se pelo fato de ambos portarem um facão em uma de suas mãos?

A grande lança na entrada do Templo de Ọmọlu Arawe na Cidade de Aise, não poderia ser a lança de Jagun?

Existem muitos mistérios em nossa sagrada religião que jamais serão revelados. Sem ser pretensioso, às vezes penso que nossa religião precisasse das “Areias do Tempo” a mítica ampulheta que permitia viajar pelo tempo. Mas isso está longe de nós pobres mortais.


Baba Guido Olo Ajagùnà

A SAGRADA CERIMÔNIA DE PURIFICAÇÃO NAS ÁGUAS



Elemento de suma importância,
“a água é o princípio da vida”.



A água é considerada o símbolo da purificação na maioria das religiões, incluindo o Hinduísmo, Cristianismo, Judaísmo, Islamismo, Xintoísmo e Wicca. Os ritos de “batismos” nas mais diversos seguimentos religiosos, são praticado na água; esta simboliza o “rito de nascimento” de um novo ser, a passagem para a vida religiosa, pois as maiores partes das culturas consideram a água a “canal que nos conecta com a espiritualidade”.

Nesse new post, focaremos apenas nas religiões de matrizes africanas, sobretudo nos descendentes dos Iorubas no Novo Mundo.

No Brasil ou em Cuba, assim como do outro lado do Atlântico na “Mãe África”, as mais diversas cerimônias de purificação dos noviços realizados nas águas, antecedem todos e quaisquer ritos de iniciação. Sabemos que os ritos as divindades do panteão africano são regionais e diferem de um local para outro; mas em seu contexto religioso tem uma única finalidade: a de purificar, harmonizar, energizar nosso corpo; ainda acrescento “defender nosso corpo de energias nocivas. Enfim uma cerimônia que tem como principal finalidade a de levar embora o que não tem mais serventia para a nossa nova vida religiosa”.

Em território iorubano esta ritualística tem a denominação de Anlodò e Pierre Fatumbi Verger em sua celebre obra ORIXÁ – Deuses Iorubás na África e no Novo Mundo a descreve da seguinte forma:
Cedo pela manhã, realiza-se o que se chama Anlodò “vamos ao riacho”, quando os noviços, homens e mulheres, saem do Igbo. Eles caminham, um atrás do outro, no estado de entorpecimento do qual falamos anteriormente. Um grande pano branco àlà, é mantido sobre suas cabeças; estão todos vestidos de panos esfarrapados e entram no recinto consagrado a Xangô, onde cada um deles recebe uma jarra contendo infusão de folhas dedicadas ao Orixá. Quando saem dali Ìyá Ṣàngó e algumas iniciadas já antigas sobre a cabeça dos futuros elégùn uma rodilha de fibras, usadas na África como esponjas vegetais. Em cada uma dessas rodilhas foram presos uma fileira de búzios e um pintainho de alguns dias, amarrado pelos pés. As jarras são colocadas por cima Ìyá Ṣàngó e suas ajudantes. Elas tem o cuidado de colocá-las três vezes seguidas, antes de deixá-las ali. A fila de noviços forma-se de novo e dirige-se, acompanhada pelas mulheres encarregadas da iniciação e por um conjunto formado de atabaques bàtá ou de cabaças agbè. Esse pequeno grupo dirige-se a um riacho, ou uma lagoa, situado no meio de uma floresta sagrada da vizinhança. Os noviços vão com o corpo inclinado para frente e a cabeça levantada para manter o equilíbrio da jarra. Caminham dançando, seguindo o ritmo dos atabaques, e de vez em quando esboçam alguns passos mais firmes, com os joelhos dobrados. Muitas vezes, um elégùn de Exu precede o cortejo para que nada de desagradável aconteça. As iniciadoras e os noviços são os únicos a penetrarem na floresta. Os músicos e as pessoas da escola param e esperam na proximidade. À beira do rio, ou da lagoa, fora construída uma pequena cabana de folhas de palmeiras. No centro, fora cavado um buraco e coberto com alguns galhos, formando uma grade. A terra retirada da escavação fora deixada ao lado, em forma de montículo. Cada noviço deve ficar em pé um após outro, em cima da grade improvisada sobre o buraco, e a jarra é colocada em cima do montículo. O iniciado é então despido e seus trapos são jogados no fundo do buraco. Seu corpo é lavado com água contida na jarra e esfregado com a rodilha os búzios e o pintainho, que, não resistindo a esse tratamento, não demora a morrer. Tudo isso é depois jogado no buraco. A operação consiste, ao mesmo tempo, num sacrifício de substituição e de purificação das faltas que tivessem podido, manchar o passado dos noviços. Assim, uma vez purificado, seu corpo é enxaguado com a água do riacho e vestido com um pano branco. Colocam-lhe na cabeça uma nova rodilha e a jarra contendo agora água do riacho. Quando o último dos noviços terminarem essa obrigação, tornam a fechar, socando a terra com os pés. O abandono das roupas velhas, substituídas pelos novos panos brancos, é um símbolo da rejeição do passado e da passagem para uma visa nova e dedicada ao Orixá.

Lidia Cabrera em sua magnifica obra IEMANJÁ & OXUM – Iniciações, Ialorixás e Olorixás denomina a cerimônia de purificação no rio de wo ti omorisha luwe odo e a descreve em ricos detalhes:

Efetuando o ebo de entrada, na hora em que o Sol vai se pôr, leva-se o omó-orixá ao rio. Em alguns ilês, prefere-se a noite ao entardecer e a purificação por meio da água viva se pratica à luz da lua ou das estrelas. Ela é conduzida pela ajibonã, segunda madrinha de assentamento, assistente da iyaré ou, caso se preferir, “a criada do santo”. Ela foi escolhida e aceita pelo orixá para este ofício de maior responsabilidade e a ela se confia o cuidado do neófito até o momento em que, já consagrado, convertido em iaô - “com santo feito” -, ele regressa a sua própria casa, levando para ela suas pedras sacramentadas, nas quais, por virtude dos ritos, se fixou um orixá em cada uma delas. A ajibonã, que além do mais será responsável por tudo aquilo que diz respeito ao lugar em que se concentrarão as forças sagradas, pelo quarto, pelo igbodu, agora vai começar a exercer funções: acompanhada de, pelo menos, duas das ialorixás mais velas, conduz a neófita ao rio. Sem “saudar”, prestar homenagem à dona do rio, sem purificar-se em suas águas, não se efetua assentamento algum. O neófito costuma levar a Oxum um pequeno caldeirão com ochinchín, um de seus pratos prediletos e outras oferendas alimentícias, igualmente gratas à deusa. Paga-lhe um direito que em Cuba, na castiça província de Matanzas, era de cinco centavos. Em seguida ele se moyuba. De yuba – prestar respeitos – criaram os crioulos o termo moyubar.

Ochun yeye mi ogo mi gbogbo ibu laiye nigo gbogbo omorisha lowe mo to si gba ma abukon ni. Omi didume nitosi omi Alafia atiyo obirin elere ache wawo atire maru acho gele nitori yo Ayaba ewa ko eleri rire atiyo. Betonicho nitosi komo nigbati wa ibulu obirin iku oko Olofi odukue.

Após saudar Oxum e explicar à ajibonã os motivos pelos quais esse omo vai assentar-se, a noviça deposita a oferenda no rio. Despojam-na de suas roupas, rasgando-as em seu próprio corpo e ela fica inteiramente nua. Os babalorixás de ocuparão do banho dos neófitos. Assistida por outras ialorixás, que presenciam o banho lustral, implorando para a futura esposa mística a proteção da deusa do rio, a jibonã dá-lhe um banho: lava cuidadosamente sua cabeça com sabão, esfrega-a, passa uma bucha em todo o seu corpo, envolvendo-a em seguida numa toalha nova e seca. A roupa, agora em frangalhos, as meias, os sapatos, a bucha e o sabão são abandonados na corrente. A toalha é guardada. Para essa purificação escolhe-se um lugar do rio em que a correnteza seja forte, levando os “despojos”. Vestida com roupas limpas, a noviça regressa ao ilê levando uma bilha de barro cheia de água. A iyaré a recebe tocando o agogô, a sineta de Obatalá, de forma curva e som mais abafado que o do adjá com que invoca Oxum e Iemanjá. “O agogô faz tan, tan, e o adjá faz, tlin tlin.” Se a pessoa que se assentar estiver muito doente e o objetivo de sua iniciação for recuperar a saúde, ela será dispensada do banho no rio, mas irá saudá-lo, acompanhada da iyaré e da ajibonã, e nele depositará a oferenda e o direito. No caso de doença grave, cumpri esse requisito irrecusável fica a critério da iyaré, que se guiará por aquilo que os deuses disponham. Com a água que a noviça leva do rio, a ajibonã a banhará em casa. É costume, em alguns ilê, não banhar os neófitos no rio estes vão fazer-lhe oferendas e recolher a água com que, em seguida, serão lavados. Em Matanzas, leva-se ao rio a pedra do orixá tutelar, que será consagrada ao omó. Ali chegando, a iá lhe pergunta:

o    O que você veio fazer aqui?
o    Buscar o santo.
o    Que santo?
o    Iemanjá ou Oxum.
o    Pois busque e jogue a pedra, de modo que a encontre sem dificuldade.


A pedra é introduzida na bilha e levada para a casa. Sempre se recolhe a pedra no rio, que se leva dentro da pequena bilha. É costume da ajibonã, ao oficiar no rio, ascender uma vela para proteger-se. “Para dar cobertura ao passo”, como costumam dizer. Afastar o mal.



Dentro dos ritos afro-brasileiros, a cerimônia de purificação no rio, denominada entre o Povo-de-Ketou de Balùwẹ assemelha-se com os ritos de matriz e do afro-cubano. Importante ressaltar que a palavra Balùwẹ esta averbada nos dicionários Iorubá-Português com a tradução de “banheiro”, mas não os locais aonde fazem nossas necessidades fisiológicas e sim aonde nos lavamos. Em alguns Terreiros esse “recinto sem porta e sem telhado” esta localizado próximo a uma fonte ou poço artesiano e inúmeras vezes ouvi dos mais velhos chamar esse local de ZáKá. 

Essa cerimônia diverge muito de uma linhagem a outra conforme os costumes da família-de-santo. Citarei alguns pontos, dos quais julgo necessário para uma melhor compreensão das mais variáveis formas de se realizar um mesmo ritual, que tem como finalidade única a de purificar o futuro iniciado.
o    Algumas ramas preferem realizar esse rito durante o dia, enquanto outras a noite...
o    Os locais são os mais variáveis possíveis, ou seja, poços artesianos, fontes, nascentes, rios, lagoas e cachoeiras...
o    Raros são aqueles que pagam tributos as divindades das águas...
o    Alguns preferem “despachar” as roupas rasgadas enquanto outros a recolhem novamente para ser utilizadas em determinado momento dos ritos de iniciação...
o    A cuia para banhar, o sabão para lavar e a bucha vegetal para esfregar o corpo da noviça são utilizadas entre as mais diversas linhagens quase que universalmente...
o    Entretanto os ingredientes utilizados no rito são mais elaborados do que outras, tais como ovo-de-galinha, quiabo, milho de canjica cozido, acaça, o pintinho e a folha-do-nativo...
o    Em algumas ramas a noviça poderá deixar parte de seu cabelo nas águas, ao contrário de outros que realizam esse ato somente dentro do quarto-da-iniciação...
o    A volta da noviça ao Terreiro envolto em lençol imaculado e carregando em sua cabeça um recipiente cheio de água natural é hábito na maioria das famílias-de-santo...
o    Trazer uma pedra ou o seixo do rio para “assentar” a divindade tutelar é raríssimo entre o povo-de-santo aquele que executam esse ato...
o    Ainda acrescento que muito dos Baba e Iyalòrìṣà realizam essa cerimônia em silêncio enquanto outros entoam uma série de cânticos específicos para o rito do Balùwẹ...






Durante a procissão dos ritos das Águas de Oxalá ou Àwon Omi Òṣàlà o ato de depositar água da fonte ou do poço, sobre os assentamentos de Òṣàlà  tem precisamente o significado de iniciar e propiciar um novo ciclo. Sem adentrarmos nesse assunto, não que não seja do meu interesse, mas estaria desviando o assunto do tópico em questão. Ainda acrescento que as Águas de Oxalá iniciam o ano litúrgico da maioria dos Terreiros da Bahia. 

Não posso deixar de mencionar que em meu conhecimento e entendimento, os descendentes de africanos no Novo Mundo delegaram “territórios aquáticos” sob domínio de outras divindades e não somente de Ọ̀ṣun. 
A exemplo da fonte, nascente ou olho d'água dois quais pertencem aos Òrìṣà Funfun; 

o poço que nos dá acesso ao lençol d'água subterrâneo esta sob o domínio de Òṣàlà e Ọ̀ṣun Ìyá Omi Ibu; 

o percurso do rio pertence à Ọ̀ṣun e Erinlẹ; 

as quedas d'água ou as cachoeiras são regidas por Òṣumare;

assim como a loca, as águas dentro de grutas e cavernas, pertencem a Yéwà; 

os charcos, banhados, poças d'água, pântanos e brejos pertencem à família de Nàná; 

as lagoas e as águas represadas pertencem as Ọlọ́ọ̀sà e a Otin; 

no encontro das águas doces com a água salgada denominada de "pororoca" esta sob o domínio de toda as Divindades Fluviais e o oceano sob a proteção de Olóòkun e alguns Ọ̀batalá que em sua essência são femininos.

Meus humildes respeitos aqueles que não realizam de forma alguma esta “sagrada cerimônia”, pois a considero de suma importância dentro de nossa religião, pois em meu entendimento as “Águas de Ọ̀ṣun” contem em sua essência, poderes curativos, adivinhatórios, protetores, purificadores e acima de tudo o mistério da fertilidade. Essa cerimônia representa a renovação, o renascimento para uma nova vida, revitaliza a conexão espiritual entre o futuro iniciado e suas divindades. Ọ̀ṣun é a divindade que representa o poder da Mãe para salvar seus filhos, que com seus poderes, permite purificar internamente aqueles que a ela recorrem. Por isso não há nenhuma cerimônia na religião Iorubá que não requeira a passagem de um iniciado pela águas de um rio.
Espero que de alguma forma tenha esclarecido o complexo “mundo das águas” das quais as divindades femininas são em maior numero de tutoras, Em outras palavras a água pertence ao elemento natural feminino, não somente dentro de nosso culto, mas em toda a vida, pois verter água sobre a terra significa não só fecundá-la, mas também restituir-lhe com seu sangue branco com o qual ela alimenta e propicia tudo que nasce e cresce.
Baba Guido Olo Ajagùnà






quarta-feira, 6 de julho de 2016

ERE - Um Estado de Consciência Parcial.



“Falam e agem como verdadeiras crianças”


Refiro-me aos “Ere” de nosso candomblé. Mas o que seria esse “Ser” tão enigmático com os mais diversos comportamentos? Uma Entidade ou apenas um “estado de consciência parcial” entre o Òrìṣà e o Elegún?

Entendo o termo “Ere”, como a forma abreviada da palavra “aṣiwère” que significa “estado de loucura”. Através de uma cerimônia simples, porém repleta de fundamentos, permitimos que a energia do Òrìṣà se desprenda parcialmente do corpo do Ọmọ Òrìṣà permitindo que as funções fisiológicas sejam ativadas e que de uma certa forma o metabolismo do corpo se estabilize. Na antiguidade um iniciado e consagrado no culto, permanecia por vários dias de "Ere".

Durante o “estado de ere” não podemos chamá-lo pelo nome do Òrìṣà nem por seu Orukọ, então daremos a esse “ere” um nome peculiar relacionado com o Òrìṣà Tutelar do indivíduo. 

Esse “Ser” às vezes engraçado e às vezes rabugento, entre tantos outros comportamentos, deve ser tratado com respeito, pois ali ainda se faz presente o Àṣẹ Òrìṣà, ou seja, a Energia da Divindade.

Não posso deixar de mencionar que “espíritos de crianças incorporados”, somente ocorrem na Umbanda, onde são chamados pelos nomes de Joãozinho, Marianinha, Pedrinho, Zezinho entre tantos outros.

Devo salientar que o "Ere" não tem absolutamente nada haver com Ìbejì – A Divindade Protetora dos Gêmeos e das Crianças, pelo menos em meu entendimento. Sem a necessidade de mencionar que Ìbejì se trata de uma “Divindade Adulta”.

A presença de tantos “Ere” na Festa de Ìbejì se dá pelo simples fato de seu comportamento infantil, onde interagem com a presença de tantas crianças presentes nesse dia de alegria. Sabemos que não existe Festa de Ìbejì sem a presença de gêmeos e crianças, e de certa forma dos “Ere Sapecas”.


Baba Guido Olo Ajagùnà

Na Bahia é uma coisa, fora da Bahia é outra...



Sempre disse e para todo o sempre direi: “A Bahia é o Berço do Candomblé no Brasil”. “Sempre terá os meus mais sinceros respeitos, assim como o Estado de Pernambuco, onde de certa forma, sobreviveram a religião dos iorubás.

Mas se você pensa que no Estado da Bahia, mais especificamente na cidade de Salvador, não exista Babalòrìṣà, Ìyálòrìṣà e mesmo Ẹ̀gbọ́n “inescrupulosos”, me desculpe, você está redondamente enganado!

Muitos equívocos, informações truncadas e decepções dentro de nossa religião “vêm de berço”, ou seja, de membros das Casas Matrizes, que ao deixarem sua terra natal, migrando para os mais diversos Estados do Brasil, para realizarem aquilo o que bem entenderem, ou melhor, “fazem aqui o que jamais fariam dentro da Bahia”. Muitos por não saberem e muitos agindo de má-fé mesmo.

Digo com propriedade, pois tenho relatos de pessoas que ao mencionar “candomblé afro-baiano” cospem no chão, se benzem e pronunciam aquelas frases de quando o nome do “Diabo” “Lúcifer” “Belzebu” é citado.

Esses supostos “Donos da Verdade” ora sumo sacerdotes do culto em terra alheia e ora “mais velhos” em sua terra natal, visam apenas o seu lado financeiro, querem extorquir bens e dinheiro daqueles que se fazem acreditar neles e nada mais alem disso. Quando indagados sobre certos assuntos, simplesmente nos respondem: “em terra de cego, quem tem um olho é rei”.

Poderia aqui transcrever horas e horas sobre o assunto, mas não vejo a necessidade disso, pois acredito que nem todos meus leitores são tão ingênuos a esse ponto.


Baba Guido Olo Ajaguna

sábado, 2 de julho de 2016

ÁWÒRÁN ÒṢÀ


"A Boneca Consagrada e seus Mistérios perdidos no tempo"



Possa até parecer estranho, quando digo “perdido no tempo”, mas é exatamente isso que acontece nos tempos de hoje. Embora quando adentramos um “quarto de santo”, podemos facilmente perceber a presença de várias bonecas, vestidas das mais diversas formas encima dos mais diversos assentamentos das divindades femininas. Entretanto, as maiorias dessas bonecas não estão consagradas e por muitas vezes, ali estão, apenas como um ornamento, um enfeite; mas longe de ser uma representação “legitimada” de uma Ìyágbà.

Na atualidade, a popularidade de bonecas encima do “assento de uma santa” é tamanha, que podemos ver as famosas bonecas “bruxa européia” sobre os assentamentos de divindades femininas que estão relacionadas à Ìyámi Òṣòròngà.

Na antiguidade, uma legitima Áwòrán, deveria ser confeccionada e preparada por uma mulher capacitada para tal função dentro do Terreiro do qual passaria a fazer parte deste. Mulher essa que ainda permanecia em seu período fértil e que já tenha colocado um ou mais filhos no mundo. Essa tarefa era vedada as mulheres que por infelicidade tenham perdido seus filhos na gravidez, independente de ser aborto provocado ou espontâneo.

As antigas bonecas eram preparadas com cabeças ocas, mãos e pés de porcelanas para diversas divindades femininas, com exceção da Áwòrán Yéwà, da qual sua cabeça oca, mãos e pés eram confeccionados em madeira escura.

O fato das cabeças serem ocas por dentro, se dá pelo motivo da obrigatoriedade de se acomodar ali, o Àṣẹ do Òrìṣà em questão, que iria receber a boneca.

As Áwòrán recebiam os mesmos tratos e cuidados que recebiam os assentamentos em que habitavam; pois segundo os antigos, acreditavam que as bonecas por sua vez consagradas, tinham vida e não apenas um “objeto inanimado” qualquer. Suas roupas eram trocadas com o tempo e de acordo com as festividades; se fosse Dia de Festa, elas vestiam roupas de santo, com seus adornos e paramentas; caso contrário, permaneciam com suas roupas de baianas e seus colares coloridos.

Um grande “segredo guardado” são suas oferendas recebidas durante as festividades, do qual não cabe nesse post violar o sagrado.

Os contos da antiguidade relacionados a essas Sagradas Bonecas são vários e só fortalecem o poder mítico desse Ser Enigmático que se perdeu no tempo.

Baba Guido Olo Ajaguna